Renato Dalzochio: minha primeira vez no AMA Supercross, em 2011

Eu em 2007, numa corrida de motocross amador em minha cidade, Farroupilha, no Rio Grande Sul. Disputando a categoria “trilheiros”, o que justifica a Suzuki DR 350 numa prova de motocross!

 

Galera, como as competições estão todas paradas por causa do surto do novo coronavírus e, acompanhando as redes sociais, percebo que está todo mundo chateado e preocupado com o futuro da temporada 2020 no Brasil e no mundo, hoje resolvi estrear minha coluna aqui no BRMX, para levar até vocês assuntos mais leves e divertidos do mundo do motocross, com pitadas de nostalgia.

Antes de mais nada deixem que eu me apresente: meu nome é Renato Dalzochio, tenho 31 anos, sou corretor de imóveis e apaixonado por motocross e supercross. Nas horas vagas, gosto de escrever sobre AMA Supercross, AMA Motocross e Mundial de Motocross. Aliás, desde abril de 2018 sou eu que trago para vocês, aqui no BRMX, as notícias, reportagens, entrevistas, resultados e vídeos destas três competições.

Minha paixão pelas motos off-road surgiu por influência do meu pai, que foi piloto de enduro aqui no Rio Grande do Sul nas décadas de 80 e 90. Eu aprendi a andar de moto com 14 anos, e até os meus 18 anos pratiquei motocross, mas nunca profissionalmente, apenas por lazer nos fins de semana. Tive que parar por recomendação médica, por causa de um problema na minha coluna cervical.

A foto acima é uma das recordações que guardo com carinho do tempo que eu arriscava umas aceleradas na pista. E a foto abaixo sou eu no colo do meu pai numa prova de enduro no final da década de 80.

Eu no colo do meu pai, durante uma prova de enduro no final da década de 80

 

A descoberta do AMA Supercross

Comecei a acompanhar o motocross dos Estados Unidos em meados da década de 90, quando descobri a existência do então “Rei do Supercross” Jeremy Mcgrath, e sua série de filmes intitulados “Terrafirma”. A partir daí passei a acompanhar os resultados do AMA Supercross pelas revistas, já que TV por assinatura naquela época era praticamente um artigo de luxo. Só fui começar a assistir as corridas na casa dos meus avós, a partir de 2001, temporada em que a lenda Ricky Carmichael acabou com o reinado de Mcgrath no supercross.

Em meados dos anos 90, descobri o Rei do Supercross, Jeremy Mcgrath, através da sua série de filmes intitulada Terrafirma. Nascia ali a minha paixão pelo AMA Supercross

 

A partir da temporada 2003 descobri quem seria o meu maior ídolo nesta competição: o australiano Chad Reed (fui eu que traduzi e publiquei recentemente a reportagem da Meta Magazine que vocês acompanharam aqui: “contra tudo e contra todos, a fantástica história de Chad Reed).

Em 2001 comecei a acompanhar o AMA Supercross na TV por assinatura. Tive o privilégio de ver Ricky Carmichael acabar com o reinado de Mcgrath

 

Sei que ao longo da história recente o AMA Supercross teve outros pilotos muito melhores do que ele, como James Stewart, Ryan Villopoto e Ryan Dungey (sem falar nos próprios Mcgrath e Carmichael), mas Reed conquistou minha idolatria pelo carisma e por ser aquele que tem o estilo de pilotagem mais parecido com Mcgrath, que indiscutivelmente foi o melhor piloto da história deste campeonato (7 títulos e 72 vitórias na categoria 450SX, recordes que permanecem até hoje).

A temporada 2003 do AMA Supercross foi determinante para que eu escolhesse o australiano Chad Reed como meu grande ídolo

 

Aliás, não por acaso Reed era o piloto mais velho em atividade no AMA Supercross até este ano de 2020, e com recordes admiráveis, como maior número de pódios e Main Events na categoria 450SX. Poderia muito bem ter se aposentado quando estava no auge de sua carreira, “sair por cima” como a maioria dos pilotos fazem, mas preferiu continuar, se sujeitando a virar retardatário no meio da garotada, simplesmente porque o amor dele pelo esporte falou mais alto. Essa vocação de “mito” e “piloto raiz” também influenciaram muito a minha idolatria pelo australiano.

Minha primeira vez no AMA Supercross, em 2011

Mas vamos voltar ao assunto principal desta coluna. Desde a infância alimentei o sonho de um dia viajar para os Estados Unidos assistir uma corrida do AMA Supercross e ver de perto os grandes ídolos do esporte. Eu não sabia quando seria, mas tinha certeza que esse momento chegaria.

Eis que no início de 2010, quando eu tinha 21 anos, veio a motivação. Acompanhando as notícias nos sites gringos, vi Reed dizer numa entrevista que 2011 e 2012 seriam as duas últimas temporadas de sua carreira antes da aposentadoria (vejam só, ainda bem que ele esperou mais 8 anos para cumprir essa promessa kkkk).

É lógico que eu não queria realizar o sonho de ir assistir o AMA Supercross sem conhecer o meu maior ídolo de infância e vê-lo em ação na pista. Se faltava o motivo, agora eu tinha um. Avisei meu pai: “ano que vem vamos assistir duas rodadas do AMA Supercross, precisamos ir atrás da documentação, passaporte, visto etc”.

E assim foi. Como iríamos assistir duas rodadas, ou seja, ficar duas semanas, pegamos o calendário do campeonato e escolhemos as etapas baseando-se não apenas na distância que teríamos que viajar entre uma e outra, mas pensando nos passeios, já que também queríamos “turistar” e não apenas assistir supercross. Pensando nisso, escolhemos a segunda rodada em Phoenix, Arizona, e a terceira em Los Angeles, Califórnia.

 

Chegada nos Estados Unidos

Decolamos do Brasil no dia 12 de janeiro de 2011, uma quarta-feira. Após 13 horas de voo, desembarcamos quinta, dia 13, no Aeroporto Internacional Dallas/Fort Worth, no Texas, escala do nosso voo para Los Angeles, onde já fizemos a imigração. Mais 5 horas de voo e finalmente desembarcamos em Los Angeles.

Do aeroporto passamos na locadora de veículos, pegamos nosso carro e, antes de ir para o hotel, passamos numa loja da Best Buy comprar uma filmadora e uma câmera fotográfica semi-profissional. Sim meus amigos, em 2011 sequer estava começando a febre dos smartphones com câmera, WhatsApp e acesso à internet. Lembro-me o quanto era “luxuoso” ligar o notebook no quarto do hotel e fazer uma chamada de vídeo com familiares e amigos via MSN. Aliás, mesmo assim teve um dia que comprei uma ficha e fiz uma chamada telefônica para a minha mãe (kkkk).

Antes de chegar no hotel, lembro-me com carinho de outro detalhe: a cada quarteirão que andávamos a nossa ficha voltava a cair. Eu e meu pai nos olhávamos e dizíamos: “meu Deus, estamos em Los Angeles, estamos nos Estados Unidos!”

Partiu Phoenix!

No dia seguinte, sexta-feira, 14, acordamos cedo para pegar a estrada, afinal, 600 km separam Los Angeles e Phoenix. Uma curiosidade: sem saber de absolutamente nada na época, ficamos hospedados no Cecil Hotel, considerado o mais macabro de Los Angeles, com várias histórias sinistras (saiba mais aqui).

Chegamos em Phoenix no meio da tarde, fizemos o check in no hotel, largamos nossas coisas no quarto e fomos direto no estádio Chase Field, garantir nossos ingressos e o pit pass (ticket que dá acesso à área do paddock durante a programação diurna no sábado).

Momento em que chegamos no Estado do Arizona

 

Nesta ida ao Chase Field algumas “imagens” começaram a mexer com a nossa ansiedade: por uma grade conseguimos ver algumas motos e caminhões das equipes e, ao lado do estádio, um restaurante temático do Arizona Diamondbacks (time de beisebol da cidade) nos presentou com uma vista panorâmica da pista.

Voltamos para o hotel ao anoitecer, jantamos e fomos dormir, pois o dia seguinte seria longo e, com certeza, inesquecível.

AMA Supercross em Phoenix: a realização de um sonho

No sábado, 15, acordamos cedo, tomamos nosso café e seguimos para o Chase Field, afinal de contas, um sonho alimentado durante 10 anos estava prestes a se realizar. Ao chegar lá, começaram as tão aguardadas fotos: motos do Villopoto e do Jake Weimer (pilotos da Monster Energy Kawasaki), moto do Kevin Windham (GEICO Honda) e moto do Davi Millsaps (JGR Yamaha).

Motos de Ryan Villopoto e Jake Weimer

 

Achei bacana que todas as grandes equipes possuem réplicas das motos dos pilotos espalhadas em pontos estratégicos do paddock, assim os fãs podem tirar fotos à vontade.

Moto de Davi Millsaps

 

Tiradas estas primeiras fotos, chegou o momento mais esperado: fui até o caminhão da equipe Two Two Motorsports e entrei na fila para a sessão de foto e pôster autografado com o meu maior ídolo, Chad Reed.

Moto de Kevin Windham

 

A sessão começou no intervalo entre o primeiro e o segundo treino classificatório da categoria 450SX, gerando uma espera de quase 2 horas, mas valeu a pena. Nesse tempo todo, fui interagindo com fãs de diferentes idades e pude perceber como é interessante que um piloto da Austrália tenha conseguido angariar uma legião tão grande de admiradores num país que, culturalmente é conhecido principalmente pelo patriotismo do seu povo (inclusive nos esportes).

Terminada a sessão de foto e pôster autografado com o Reed, passamos o dia tirando mais fotos, pegando pôsteres e curtindo o clima dos bastidores.

Sonho realizado: foto com meu ídolo de infância, Chad Reed

 

As 18h30 do horário local, faltando meia hora para a cerimônia de abertura, o paddock é fechado para o público, que obrigatoriamente se dirige para dentro do estádio. Na fila para entrar no Chase Field, escutando o locutor do evento animando o público e pensando que o show do AMA Supercross finalmente iria começar, era praticamente impossível contar a ansiedade.

Nem preciso dizer que o espetáculo superou todas as nossas expectativas. Na cerimônia de abertura, que por si só já é um show à parte, deixei a missão de filmar para o meu pai, já que eu não queria perder um único detalhe (kkkk)!

Já dentro do Chase Field em Phoenix, eu e meu pai momentos antes do AMA Supercross começar

 

Nas corridas, vitória de Josh Hansen na categoria 250SX Costa Oeste e James Stewart na 450SX. Reed finalizou em 4º (se me serve de consolo, ele venceu a segunda classificatória kkkk). Voltamos para o hotel mais do que satisfeitos.

A seguir alguns vídeos que fiz da arquibancada com a minha filmadora.

AMA Supercross 2011 em Phoenix: trecho Heat 1 categoria 250SX Costa Oeste

 

AMA Supercross 2011 em Phoenix: trecho Heat 1 categoria 450SX

 

AMA Supercross 2011 em Phoenix: trecho Main Event categoria 450SX

 

Turistando nos Estados Unidos

Após as corridas em Phoenix, a semana que precedeu o AMA Supercross em Los Angeles foi destinada ao turismo: aproveitamos para passear pelos Estados Unidos.

No domingo, 16, fomos conhecer o Parque Nacional do Grand Canyon. Viajar pelo interior do Estado do Arizona foi uma das experiências mais incríveis que tive na vida. Uma mistura de clima de cidade do interior com o inconfundível velho oeste americano. E na noite anterior havia nevado, o que contribuiu para deixar os cenários ainda mais bonitos.

Após várias fotos e visões de tirar o fôlego no Grand Canyon, seguimos para Las Vegas, onde chegamos no início da noite. Foram 3 dias na cidade do pecado: segunda, terça e quarta. Na quinta, 20, voltamos para Los Angeles. Antes de retornar para o nosso hotel mal assombrado, passamos no Dodger Stadium garantir nossos ingressos e os pit pass para a terceira rodada do AMA Supercross.

A sexta-feira, 21, reservamos para fazer turismo em Los Angeles (Hollywood, Beverly Hills, etc), e aqui cabe uma história interessante: na hora do almoço encontramos um restaurante cujo os proprietários era um casal do Rio Grande do Sul. Não por serem gaúchos como eu, mas quem já foi para os Estados Unidos sabe o quanto é difícil se alimentar bem num país que vive de fast food. Após uma semana nos Estados Unidos, nunca fiquei tão feliz por poder comer arroz, feijão e carne de churrasco novamente (kkk).

Parque Nacional do Grand Canyon, local simplesmente espetacular

 

Em Las Vegas, na frente do bar temático da Harley Davidson

 

Sinal de Hollywood em Los Angeles

AMA Supercross em Los Angeles: mais momentos inesquecíveis

A rotina no sábado, 22, foi semelhante a de Phoenix uma semana antes, mas com uma diferença: sem precisar enfrentar novamente uma fila de quase 2 horas para tirar foto e pegar pôster autografado de um único piloto, consegui tirar fotos com outros: Ryan Villopoto e Justin Brayton foram alguns deles.

Rei do Supercross, Jeremy Mcgrath, com a equipe oficial de fábrica da Honda nos bastidores do AMA Supercross em Los Angeles

 

Também encontrei o brasileiro Antonio Jorge Balbi Júnior, que fazia pré-temporada no AMA Supercross disputando a categoria 250SX Costa Oeste, além de David Balley, lenda das antigas, e uma foto que considero muito especial: um jovem alemão chamado Ken Roczen (que hoje brilha no AMA Supercross e AMA Motocross), com 17 anos na época, fazendo pré-temporada nos Estados Unidos (conquistaria seu primeiro título mundial de motocross na categoria MX2 ao final daquela temporada).

Brasileiro Antonio Jorge Balbi Júnior, na época em pré-temporada no AMA Supercross, partindo para um dos treinos classificatórios da categoria 250SX Costa Oeste

 

Mas teve também outro momento memorável (que também posso dizer que foi um sonho de infância realizado): naquele dia o “mito” Travis Pastrana chegou no paddock pilotando um carro da Nascar (ele faria uma exibição com ele dentro da pista do supercross horas mais tarde, no intervalo entre as classificatórias e repescagens).

No meio de uma multidão de fãs enlouquecidos, a muito custo consegui me aproximar um pouco e tirar uma foto. Não foi uma foto ao lado dele, mas pelo menos ele acenou.

No meio de uma multidão enlouquecida, isso foi o mais perto que eu consegui chegar do Pastrana, ainda bem que ele acenou

 

Na programação noturna, mais um show à parte (nem preciso falar da cerimônia de abertura, que dispensa comentários, veja no vídeo abaixo), e entre um intervalo e outro, Pastrana com seu carro da Nascar na pista (conforme já citei acima) e o Rei do Supercross, Jeremy Mcgrath, brindando o público com o seu famoso nac nac.

Ryan Villopoto, que mais tarde venceria aquela corrida na categoria 450SX. Reparem quem está do lado dele. Um tal de Adam Chatfield, que um ano depois estaria disputando o Brasileiro de Motocross por aqui

 

Nas corridas, vitória de Ryan Villopotto na 450SX, após disputa épica com James Stewart, Ryan Dungey, Trey Canard e Kevin Windham (este último largou na frente e liderou o início da prova, para delírio do público).

Ken Roczen, na época com 17 anos, fazendo pré-temporada nos Estados Unidos. No final daquele ano conquistaria seu primeiro título mundial de motocross na categoria MX2

 

Reed caiu logo na largada e terminou em 7º (acho que minha torcida na verdade foi um tremendo pé frio para ele nas duas etapas kkkkkk). Na 250SX Costa Oeste, quem levou a melhor foi Cole Seely.

A seguir mais algumas fotos e um vídeo que fiz da cerimônia de abertura em Los Angeles.

Justin Brayton, na época piloto da equipe JGR Yamaha

 

Com a lenda David Balley

 

Momentos antes de começar o AMA Supercross em Los Angeles

 

Cerimônia de Abertura: AMA Supercross 2011 em Los Angeles

 

Retorno ao Brasil

Após o sábado de corridas no AMA Supercross, no domingo e na segunda-feira aproveitamos para turistar mais um pouco em Los Angeles, já que o nosso voo estava marcado para a terça-feira.

Já no retorno para o Brasil, conexão no aeroporto de Dallas/Fort Worth

 

Eu e meu pai desembarcamos no Brasil na quarta, 26 de janeiro, com o sentimento de dever cumprido. Exaustos é verdade, mas com lembranças que iremos levar por toda vida em nossas memórias, afinal de contas, repito reiteradamente: foi inesquecível.

Na próxima coluna irei contar como foi a minha segunda viagem ao AMA Supercross, em 2014. Sim meus amigos, gostei tanto de realizar este sonho de infância que não me contentei em ir apenas uma vez, voltei 3 anos depois para assistir outras duas rodadas: Oakland e Anaheim 3.

Até lá!