Ken Roczen, campeão do AMA Motocross 2014, conta como foi chegar ao topo

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Ken Roczen é campeão do AMA Motocross 450 2014 – Foto: KTM Images

 

Depois de se tornar o mais jovem piloto da história a vencer uma etapa (overall) do Mundial de MX2 apenas três meses depois completar 15 anos de idade, em 2009, o alemão Ken Roczen foi para os Estados Unidos testar suas habilidades no Monster Energy Supercross, em 2010. O aprendizado e aprimoramento do jovem piloto eram nítidos, e Kenny conseguiu uma vitória em Las Vegas naquele ano, importante para o seu currículo, e que trouxe entusiasmo com o modo americano de fazer as coisas.

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Em 2011, Roczen voltou para a Europa para terminar o que havia começado lá e se consagrou o mais jovem campeão do Mundo MX2 na história. Depois de vencer o Mundial, foi para os EUA novamente, desta vez em definitivo. E fez história. O currículo do alemão de apenas 20 anos de idade já conta com um Mundial MX2, quatro vitórias overall no Motocross das Nações na categoria MX2, um caneco com o time alemão no Motocross das Nações de 2012, um título de Supercross na 250 Costa Oeste, e finalmente o cobiçado AMA Motocross 450. Por incrível que pareça, se o garoto se aposenta aos vinte anos de idade, ele já seria considerado um dos melhores pilotos de todos os tempos.

Depois de faturar o título no último fim de semana, em Salt Lake City, Utah, o campeão falou à imprensa. Abaixo você confere trechos da entrevista coletiva.

 

Você revelou algo interessante durante uma entrevista no final do dia. Você admitiu que, na verdade, estava nervoso. Todo mundo tenta fingir que não está nervoso, mas você finalmente disse: “sim, eu estava.”
Roczen: Sim, isto foi porque muitas pessoas, desde a quinta e sexta-feira, vinham até mim dar todo tipo de dica, ou faziam comentários já comemorando. Foi uma sensação estranha. Eu pensava só em não falar com ninguém, chegar na hora e pilotar. Eu não costumo ficar nervoso, só mais quando vejo o gate e as coisas estão prestes a acontecer. E na verdade, na primeira corrida eu não fui tão mal. Quando você não está no gate, você sempre pensa “não estou nervoso”, mas quando chega a hora e você está lá é uma sensação diferente. É realmente difícil evitar que esse nervosismo aconteça simplesmente se afirmando “estou pronto para isto, é apenas mais uma corrida”. Acho que nas últimas voltas eu estava muito lento, errei alguns saltos e a minha roda dianteira começou a ter problemas, tive problemas com a embreagem. Eu só pedia para a moto aguentar até o fim, e consegui levar até o fim, o que foi uma grande realização. Eu estava quase preparando um discurso de que tive um ano difícil, mas na verdade tive resultados bastante sólidos durante todo o ano, embora não tenha sido como eu queria em um ponto ou outro, os pontos mostram o resultado final. Foi duro, e na verdade eu mal posso esperar para relaxar e me divertir um pouco (risos).

Você também disse que ficou doente durante a semana, não bastava só o stress?
Roczen: É verdade, foi na terça-feira. Eu não tinha febre, mas sentia os mesmos sintomas como se tivesse. Tive dor de cabeça e fiquei muito congestionado, então tive que descansar. Por causa disso, até a quinta-feira eu não fiz nada além de caminhar. Eu realmente tentei descansar e não piorar a situação me agitando muito, mas não consegui ficar muito quieto.

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Roczen fez 3-4 em Utah e garantiu o título – Foto: KTM Images

 

Você teve um grande incidente na primeira bateria (colidiu com um piloto retardatário). Fale sobre esse momento.
Roczen: Eu literalmente quase caguei nas calças (risos). Eu estava num traçado correndo por fora e do nada tinha um retardatário. Num primeiro momento, não achei que nós estivéssemos tão perto, mas acho que ele começou a ir um pouco mais para a esquerda e enganchou o guidão no meu braço. Soltei a mão direita – na verdade ela foi puxada (risos). Perdi a dianteira, não caí mas saí da pista. Eu não sei como eu fiz isso, mas por um momento muito assustador. Se eu caísse da moto, acho que teria sido um grande problema, porque estávamos muito rápido. Na verdade, quanto eu estava no gate antes da largada, eu deixei cair o capacete e pensei “bem, aí está. Já está feito, sem mais acidentes por hoje” (risos). É uma boa maneira de pensar. Na verdade eu não sou muito supersticioso, mas quando você está muito perto do campeonato, você já começa a acreditar nessas coisas, mas eu apenas tentei manter isso fora da minha mente.

Você não precisava correr tão forte na primeira prova, apesar disso você estava dando duro lá.
Roczen: Sim, eu disse a mim mesmo que queria apenas ir lá correr forte. Acho que na primeira metade ou três quartos, que estava indo muito bem, até aquele momento, e então a partir daí eu foquei apenas em me manter em cima da moto. Honestamente não sei o que é mais difícil. Quando você tem esse tipo de liderança, é como se você pudesse realmente relaxar um pouco, mas não muito, uma situação delicada. Quando você está perseguindo é mais objetivo, é pressão. Por vezes pode ser mais fácil. Não sei se por causa do stress ou se ainda é resquício do mal estar que tive na semana, mas durante as corridas meu pescoço começou a doer, logo depois doíam também as pernas. Além disso, estamos a uma altitude que não torna as coisas mais fáceis. Com o corpo dolorido, eu tratei de pilotar com segurança.

Ano passado você ganhou o Supercross 250 Costa Oeste, e este ano, a 450 MX. Como os dois se comparam? Se pode dizer que o Supercross foi mais importante, porque não tem na Europa?
Roczen: É bom ter dois títulos em sequência, especialmente sendo um deles no Supercross 250. Mas eu acho que este está sendo muito especial porque é meu primeiro ano na 450, e definitivamente é conhecido por não ser o mais fácil. Acho que a maioria dos pilotos que mudam de categoria não têm um primeiro ano melhor do que estou tendo. Isso teve um sabor especial. É uma longa temporada, 12 etapas, e mesmo que você vá bem em uma corrida, ainda está longe. Mesmo quando você tem a liderança e faltam apenas cinco corridas, ainda parece muito distante. E finalmente quando você faz acontecer, tem um sabor especial. É bom ter um título no Supercross e um no Motocross. É muito legal ver que você pode ter ambos.

Você fala sobre o longo caminho desde a primeira etapa até o final, mas agora, depois de 29 corridas (contando as do Supercross), como é correr tudo isso com apenas uns quatro fins de semana de folga?
Roczen: Este é o ponto, você não nota quando está completamente envolvido, e eu estou muito feliz de ter feito cada corrida como fiz durante toda a temporada. Corri todas. Antes de mais nada, foi um bom ano de aprendizagem, e eu agora sei o quanto foi difícil. Foi incrível ter terminado a temporada com sorte e saúde até o fim.

 

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Ele não venceu sozinho – Foto: KTM Images

 

A temporada acabou, então você pode nos dizer a verdade agora. Nas duas etapas antes de Indiana você não foi tão bem, e você estava nos dizendo “eu ainda estou feliz e as coisas estão indo bem.” O que estava realmente acontecendo?
Roczen: Isso me aconteceu no Supercross também. É quando sua cabeça diz uma coisa e seu corpo diz outra. Eu posso dizer ao meu corpo que tem mais uma corrida, e mais outra, mas às vezes o corpo não se sente tão bem quando a mente gostaria. É uma espécie de marco, um limite a ser ultrapassado. A carga de treinos que fazemos o tempo todo é pesada, e não há muitos finais de semana livres. Mas por outro lado se você pegar leve para aguentar mais, você pode ficar pra trás em questão de algumas semanas. É uma linha muito tênue que se tem que ter cuidado. Eu estava andando muito bem no primeiro semestre, praticamente não parecia que estava difícil para mim. Eu estava realmente em forma, estava no auge. Acho que poderia ter pegado mais leve em um detalhe ou outro, poderia ter sido melhor para mim, mas essas são coisas que você aprende.

Ao longo do ano, Ryan [Dungey] nos contou que buscava a configuração ideal da moto e outras coisas. Foi assim também para você?
Roczen: Na primeira metade da temporada eu basicamente mantive o mesmo padrão. Quando você está se sentindo forte, você pode fazer muito pela moto, quero dizer, mesmo que a moto não esteja perfeita, você tira a diferença. É diferente para cada moto. Há momentos em que você não está se sentindo ótimo, e esses são os dias em que você geralmente quer mudar, fazer acertos na moto para conseguir um melhor desempenho. Mas no geral, nós somos campeões por uma razão. Minha equipe, meu mecânico, todos trabalharam muito, e fizeram um bom trabalho. Obviamente, eu fui o foco de boa parte deste trabalho, e é bom ver o resultado alcançado.

Você é da Europa. Você estava correndo a Europa. Você teve sucesso na Europa. Provavelmente teria sido muito fácil simplesmente ficar lá, mas você decidiu vir para os EUA, e isso é um enorme sacrifício. Eu sei que seus pais puderam vir hoje, mas você não consegue vê-los o tempo todo. Como você faria se você tivesse ficado por lá? Fale um pouco sobre por que você quis isso e como se sente agora com os resultados.
Roczen: Quando criança meu sonho era vir para cá. Eu acho que o sonho de todo mundo por lá é vir para os EUA. Aqui é muito mais difícil. Tive sorte com a KTM. Eles queriam construir aqui a mesma coisa que eles tinham na Europa. Eu tinha a opção, e é a situação que todos desejam. Eu podia escolher ter ficado lá ou vir para os EUA. Eu queria estar aqui, mas sempre parecia bem distante. Eu pensava “bem, eu ainda tenho tempo”. Mas quando eu tinha 16 anos, tive a oportunidade e pensei “seja como for, eu vou!”. Eu vim para os EUA, e as corridas foram definitivamente muito mais difíceis, porque eu não tinha qualquer experiência em Supercross. Quer dizer, eu tinha uma pequena pista em casa, mas nada comparado a isto aqui. Honestamente, o que era muito estranho é que na Europa, no gate de largada, até o cheiro é diferente. As motos são mais barulhentas aqui também, é toda uma atmosfera diferente que eu realmente tive que me acostumar. Eu não sei se me adaptei mais rápido ou não, mas eu sabia quando vim para cá: não seria apenas um ano, eu estava pensando em tomar dois a três anos para ficar totalmente adaptado, e eu finalmente me sinto em casa. Sinto que tenho a vida em ordem aqui. Tenho um canto na Flórida agora. As coisas estão se firmando, e meu futuro está aqui. Estou aqui para um longo período e é isso que eu quero. É muito especial para um europeu, especialmente um alemão, vir até aqui e, finalmente, ter um par de títulos.

 

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Roczen fechou a temporada com 532 pontos, apenas 14 a mais que companheiro de equipe Ryan Dungey – Foto: KTM Images

 

Fale sobre seus pais estarem aqui neste fim de semana para comemorar com você.
Roczen: Minha irmã, minha mãe e minha sobrinha vieram para a Flórida, por isso estão mais presentes nas últimas semanas, e meu pai finalmente chegou. É muito legal. Fazia um tempo que não o via. É bom para mim tê-lo de volta como nos velhos tempos em que ele estava trabalhando comigo e, basicamente, me massageando e incentivando. É um tanto emocionante para nós.

Você pode falar sobre o seu principal rival e companheiro de equipe (Ryan Dungey)? O título mudou alguma coisa no relacionamento no box?
Roczen: Honestamente, não. Nós temos uma relação muito boa. Quando estávamos na Costa Oeste e começamos a correr no Motocross e etc, nós treinávamos juntos, jantávamos e passávamos bastante tempo. Você pode até achar um pouco estranho, mas nós somos apenas duas pessoas que podem lidar bem com a concorrência e conviver na mesma equipe. Até agora tudo tem sido muito bom e não tivemos qualquer problema durante todo o ano. Acho que com alguns outros pilotos, talvez em outra equipe, seria um pouco diferente. Ainda ontem conversávamos durante o churrasco à noite. É assim que eu sou, uma vez que estou fora da pista, estou de bem com todo mundo.

Fale um pouco sobre como é ser uma parte desta equipe, a Red Bull KTM. Ryan tem um campeonato e agora você tem dois. Marvin (Musquin) foi incrível ajudando a trazer a marca até onde ele está.
Roczen: O que a KTM tem feito nos últimos três anos é inacreditável. Eles estão trabalhando muito e sempre na hora certa. Eles também têm os pilotos certos. Simplesmente tudo flui bem. Além disso, cada integrante da equipe, são todos muito amigos. É legal trabalhar e passar pelo campeonato assim. Eu estava pensando sobre isso mais cedo, Roger (De Coster, chefe da equipe) deve estar com a boca nas orelhas, porque os seus dois garotos são, basicamente, primeiro e segundo. Para ele, provavelmente foi um fim de semana de ouro. Foi ótimo ver tudo isso acontecendo, eles sabem o que fazer e quando fazer, isso motiva muito. Quando todos dão o seu melhor, as coisas funcionam muito melhor.

 

Resultados (overall) de Roczen em todas as etapas do AMA MX 2014

1ª etapa
1. Dungey
2. ROCZEN
3. Canard

2ª etapa
1. ROCZEN
2. Dungey
3 Canard

3ª etapa
1. ROCZEN
2. Bubba
3. Dungey

4ª quarta
1. Bubba
2. ROCZEN
3. Canard

5ª etapa
1. ROCZEN
2. Dungey
3. Tomac

6ª etapa
1. ROCZEN
2. Tomac
3. Dungey

7ª etapa
1. Dungey
2. ROCZEN
3. Tomac

8ª etapa
1. Tomac
2. Dungey
3. ROCZEN

9ª etapa
1. Dungey
2. Tomac
3. ROCZEN

10ª etapa
1. Dungey
2. Canard
3. Tomac
4. ROCZEN

11ª etapa
1. ROCZEN
2. Canard
3. Dungey

12ª etapa
1. Canard
2. Dungey
3. Tomac
4. ROCZEN