Dias amargos para o Alemão

Mesmo com um currículo considerado ótimo para muitos, com diversos títulos de grande expressividade, Ken Roczen deixa o título 2021 do Supercross escorrer por entre os dedos em mais uma temporada ao estilo montanha russa.

Muitos de nós não sabemos o que é de fato trabalhar sob pressão, sob cobrança extrema por resultados, de carregar nas costas o peso de uma legião inteira de fãs em um esporte que é 85% mental e emocional e apenas 15% físico.

Muito bem quisto entre os amantes do Off Road mundial, o alemão Ken Roczen é um dos poucos estrangeiros que se tornaram verdadeiros queridinhos do público americano, talvez até o único com tamanho prestígio, já que os americanos são conhecidos por serem extremamente patriotas e não compartilharem bons olhos para pilotos de outros países.

Ignorando o fato de Roczen vencer alguns dos principais nomes americanos da modalidade, nomes como Ryan Dungey, James Stewart e até mesmo o “Capitão América”, Ryan Villopoto, a torcida americana literalmente recebeu Roczen de braços abertos.

Uma carreira invejável, um currículo como poucos, com feitos como o de ser um dos pilotos mais jovens a competirem no Mundial de Motocross, já o alemão fez sua primeira temporada na competição com apenas 15 anos de idade, campeonato este que viria a vencer 2 anos após sua estreia, com meros 17 anos, sagrando-se o competidor mais jovem da história a tornar-se Campeão Mundial de Motocross.

Com alguns outros feitos na bagagem, estima-se que Roczen tenha hoje um patrimônio líquido na casa dos 5 milhões de dólares, o que sem sombra de dúvidas o qualifica como um profissional de sucesso, que em teoria, tenha conquistado tudo que seja possível, mas não é bem por aí.

Campeão Mundial Júnior (85cc) em 2007, Campeão Mundial MX2 em 2011 (com apenas 17 anos), Campeão do Motocross das Nações em 2012, Campeão do A.M.A. Supercross na categoria 250cc na costa Oeste em 2013, 2 vezes campeão o A.M.A. Motocross na categoria 450 nos anos de 2014 e 2015, além de um título do Monster Energy Supercross Cup em 2015 que lhe rendeu uma premiação de 1 milhão de dólares, além de diversos outros títulos de menor expressividade.

KTM comemorando o título de Roczen em 2011, que teve Jeffrey Herlings como seu companheiro de equipe.

Infelizmente alemão já não é mais o mesmo.

Detentor de uma pilotagem impecável, extremamente técnica, estilosa e de uma tocada completamente limpa, talvez Roczen seja hoje, o piloto mais técnico alinhado no gate, mas falta algo a mais, falta decisão, a aparência é que falta vontade em alguns momentos.

Por vezes, como vimos nos primeiros 5 minutos de prova ontem, na Final deste ano, Roczen era obrigado a vencer a prova na maioria dos resultados possíveis para ficar com o título, o Alemão se empodera de uma vontade e determinação que empolga os fãs, mas ao que parece, basta que uma única situação contrária ao que ele planeja ou espera, para que haja um desmoronamento emocional e todo o foco e concentração de Roczen vá para o ralo.

O estilo “Cavalo Paraguaio” lhe rendeu muitos memes ao longo desta temporada do Supercross, e o queridinho do público passou de esperança a “vetezeiro”, tornando-se apenas mais um coadjuvante no palco de Cooper Webb.

Digamos bem a verdade, Roczen foi, pelo menos no Supercross, a piada ambulante sobre rodas desta temporada.

Talvez as lesões recentes tenham o feito tomar medo, tenham o feito se tornar receoso em dividir uma curva por posições.

Mas desde que mundo é mundo, Roczen nunca foi um piloto de encontrões, de chegada dura, com alguns poucos casos isolados na carreira, Roczen sempre foi o piloto de ultrapassagens limpas e puramente técnicas, o tipo de piloto que estudava o adversário e dava o bote no ponto exato e na hora certa!

Um “chega pra lá que tô passando” ao estilo Ken Roczen pra cima de Ryan Dungey em Hantown durante o campeonato de 2014.

Talvez seu emocional não esteja 100% como se esperava, e o Motocross/Supercross cobra um preço extremamente alto de um piloto do seu nível que não esteja mentalmente preparado para as diversas situações que podem e vão ser vividas dentro e fora das pistas.

É completamente inadmissível, um piloto do nível de Roczen, se permitir cair em uma situação em que se lidera uma prova, se impondo e se arriscando, como nos primeiros 5 minutos de ontem, a finalizar apenas com a décima colocação, sem nenhum problema mecânico ou físico.

Webb fez uma das provas mais impecáveis da temporada, andou de forma segura e tranquila enquanto havia o risco, mesmo que pequeno, enquanto Roczen liderava, com Musquin trabalhando como um escudo.

Webb conquista seu segundo título da carreira na classe 450cc.

A partir de o momento em que o alemão decaiu no rendimento, vimos um Webb arrojado e agressivo, talvez não com a mesma intensidade do restante da temporada, mas com vontade de não só ficar com o título, mas de vencer a etapa.

O título foi mais do que justo, e a nós que gostamos e ainda assim, torcemos por Ken Roczen, nos resta aguardar que o cenário seja bem diferente nos outdoors, que se iniciam no próximo dia 29 de maio.