Pilotos lamentam mudança no calendário do Brasileiro de Motocross 2015

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Largada do Brasileiro MX foi adiada para maio – Foto: Mau Haas / BRMX

 

O adiamento da abertura do Brasileiro de Motocross 2015 anunciado na sexta-feira, 30, pela Confederação Brasileira de Motociclismo (CBM) causou descontentamento entre fãs do esporte, equipes e, principalmente, pilotos. A CBM alegou em nota no seu site, no dia da mudança, que a atitude era “Para a melhor organização das provas do Campeonato”. Nas mídias sociais ou em entrevista ao BRMX, muitos se manifestaram contrários à mudança, que causa danos na preparação dos atletas e empresas para a temporada do principal campeonato nacional da modalidade.

A CBM havia anunciado em dezembro um calendário prevendo o início da temporada para março. Geralmente, um atleta de alto-nível programa seus treinos para chegar no início da temporada em plena forma física e técnica. Esta preparação inicia em janeiro, às vezes até mais cedo, para que em março ele chegue em condições de brigar pela vitória na abertura do campeonato. Ao adiar a etapa de abertura em 70 dias, a entidade “bagunçou” a programação dos pilotos e equipes, como explica Carlos Campano, da equipe Yamaha Grupo Geração, atual campeão brasileiro da categoria MX1.

– Um atraso assim atrapalha demais. Treinamos muito e fazemos muitos sacrifícios para chegar prontos na primeira etapa. Agora tudo se atrasa. Temos que treinar mais dois meses, com mais riscos de lesão, mais peças e mais gastos. Para mim, o maior problema do Brasil são os calendários e suas mudanças. Um campeonato profissional deve ter um calendário bom e seguro, e deve sair bem cedo, agosto ou setembro do ano anterior. Com isso, você pode fazer um programa de treinos certinho, um projeto bom, acertar patrocínios e se preparar 100% – comenta Campano.

Balbi Junior, da equipe Pro Tork, é um dos atletas mais experientes e vitoriosos do circuito. Sempre muito comprometido com sua rotina de treinamentos, também ficou descontente com a mudança no calendário.

– Infelizmente, essas atitudes da CBM comprometem muito toda programação dos pilotos e equipes, e mostram um descaso muito grande com o esporte. Não podemos esquecer que o país vive uma crise econômica e que as coisas são complicadas, mas jogar uma etapa de março para maio não faz sentido nenhum. Às vezes chego a me perguntar se isso não é para beneficiar alguém, ainda mais depois de ver um regulamento escrito em virtude de beneficiar algumas equipes. Não sei direito o que está acontecendo, mas sei que é triste o cenário do motocross brasileiro. Viemos correndo campeonatos com nível muito ruim (de organização) enquanto os pilotos e equipes vêm se preparando cada vez mais. Sinceramente, não espero muito mais da Confederação, salvo algumas pessoas que estão lá dentro. A direção tem falhado bastante – argumenta Balbi.

Para atletas privados – que não integram equipes e dependem de patrocinadores pessoais para fazer todo campeonato -, a situação é preocupante. Humberto “Machito” Martin diz que este tipo de mudança causa constrangimento aos pilotos perante os patrocinadores.

– Fica difícil pra nós nos organizarmos com um campeonato que muda a qualquer momento. Como explicamos isso para um patrocinador que não está envolvido com motocross? Os pilotos oficiais (de equipes) no Brasil são poucos, o resto depende de muitas variáveis, e a organização é necessária. Todo mundo do motocross no Brasil sabe que as motocicletas novas demoram bastante para chegar, então por que não prever isso antes? – questiona Machito.

 

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Pilotos reunidos em Pedra Bonita, Minas Gerais, durante segunda etapa do Brasileiro de Motocross 2014. Da esquerda para direita: Balbi Junior, Anderson Cidade, Carlos Campano, Hector Assunção e Jean Ramos

 

Jean Ramos (Yamaha Grupo Geração), principal piloto brasileiro na última temporada, está machucado e em processo de recuperação de uma fratura no braço. Teoricamente, ele poderia ficar contente com este adiamento pois terá mais tempo para se recuperar, mas se solidariza com a causa e também reclama de “descaso”.

– Essas mudanças não são de hoje. Não chego a me surpreender com essa notícia. Isso atrapalha muito a programação, a captação de patrocínio e tudo mais. Eu sempre tenho esse projeto de correr o AMA Supercross, e neste ano, por exemplo, eu poderia ficar (tinha proposta) pras as três últimas etapas da Costa Oeste (que acontecem em abril e maio), mas não aceitei ficar porque iria coincidir com etapas do Brasileiro MX. É muito complicado se programar, tanto para pilotos quanto para patrocinadores. Ainda lançam o calendário sem dizer em qual cidade será a corrida. Chegamos nos patrocinadores e eles dizem “como vou te patrocinar se você não sabe onde vai correr”. Torço para reverter isso, mas a CBM hoje não tem credibilidade nenhuma no calendário. Passei o Natal e o reveillon treinando porque o campeonato iria começar cedo – lamenta Jean Ramos, vice-campeão brasileiro de motocross.

É em relação ao período de preparação que o bicampeão brasileiro de MX2, Hector Assunção, da Honda Mobil, também faz a sua ressalva. Sabendo que este é o principal campeonato de motocross no Brasil, ele entende que o circuito deveria ser melhor organizado.

– O que mais atrapalha é a preparação. Fazemos uma programação com o personal trainer de um treinando ideal, que começa cerca de dois meses antes do evento. Aí, o evento muda e prejudica a preparação. Acabamos ficando quatro meses só em treinamento, e quando chega a corrida estamos com o conhecido over training (expressão em inglês para dizer que treinou mais do que deveria). Outro ponto é que começando tarde assim, o campeonato vai acabar tarde, quase em dezembro, quando deveríamos estar em férias – acrescenta Assunção.

Por fim, o BRMX conversou com Jetro Salazar, da Escuderia X. O equatoriano fará sua segunda temporada completa no Brasil e consegue enxergar com maior paciência o adiamento.

– Eu acho que é desorganização da parte deles, e não é bom dar um calendário e depois mudar. Mas devem ter os problemas deles e por isso fazem isso. Pra mim, foi até bom porque ganhei mais tempo de preparação. E, apesar disso, temos a Copa Minas e o Arena em março, então não ficaremos sem correr em março. Isso vai ajudar – finaliza Jetro.

O Arena Cross e a Copa Pro Tork Minas Gerais de Motocross têm crescido bastante e caído nas graças de público e pilotos. Mesmo assim, o Brasileiro de Motocross ainda é o campeonato mais aguardado e mais desejado pelas equipes, e por isso a indignação de muitos em relação a este episódio. O BRMX, como órgão de imprensa, sugere mais: a CBM deveria organizar não apenas o calendário do Brasileiro de Motocross, mas também os períodos das competições estaduais e regionais, fazendo como fazem as grandes federações em outros esportes. Agindo da maneira correta, a CBM poderia dar um impulso gigante para o esporte. #ficaadica

 

*Texto atualizado às 9h de quarta-feira, 4

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