Entrevista: Hector Assunção conta como foi a conquista do Brasileiro de Motocross 2014 na MX2

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No dia em que reassumiu a liderança do campeonato, em Santa Maria – Foto: Christine Wesendonk / BRMX

 

Muitas pessoas costumam dizer que Hector Assunção é um talento nato do motocross brasileiro. Cresceu montado em uma moto, tendo o irmão Roosevelt Assunção como espelho e o pai, popularmente conhecido como”Português”, como principal mentor. Aos 22 anos, Hector tem cinco títulos do Brasileiro de Motocross, dois na 65cc, um na 85cc e mais dois na MX2.

Em 2014, ano de seu retorno à Honda após conquistar o título da MX2 pela marca em 2012 (e sair da equipe em 2013), ganhou o campeonato mais uma vez. E venceu quando todos pensavam que o troféu ficaria com Paulo Alberto ou Thales Vilardi, que se revezaram na liderança da segunda até a sexta etapa. O paulista Hector, “comeu pelas beiradas” como se fosse mineiro, ganhou a primeira, a sétima e a oitava etapa e faturou o título. Esteve no pódio em todas as rodadas e cometeu poucos erros, apesar de ter competido uma parte do campeonato com o pé lesionado.

Três semanas depois da conquista, ele atendeu ao BRMX para uma entrevista sobre este ano em que ele comprovou que ser persistente faz parte deste esporte, mostrou mais uma vez que o campeonato só termina na última bandeirada e ressaltou que a frase “nada está perdido” é verdadeira.

Confira como foi o bate-papo!

 

BRMX: Está de férias já?
Hector Assunção: Ainda não. Fim de semana vou correr o Goiano (de Motocross), depois ainda tem a final da Copa Minas (Gerais de Motocross, no dia 30 de novembro).

BRMX: Então segue a rotina de treinos.
Hector Assunção: Estou treinando menos, mas estou treinando. Treinei quinta-feira, treinei fim de semana na Pista do Alemão, onde teve a Copa São Paulo. Estou mantendo, andando de moto para manter o preparo. Diminuí um pouco o ritmo da academia.

BRMX: Então as férias esse ano chegam só em dezembro.
Hector Assunção: É, vai ser dezembro até a metade de janeiro, mais ou menos.

BRMX: Voltando no tempo, como foi a comemoração do título? Teve festa? Churrasco?
Hector Assunção: No domingo mesmo, depois da corrida, todo mundo fez festa (em Toledo, Paraná). Comemoramos juntos com a X Motos, depois juntamos com a Yamaha também, todo mundo festejou. Esquecemos as disputas dentro das pistas e fizemos a festa. Foi bem divertido, todo mundo junto, sujo, comendo, bebendo. Era gente querendo cortar o cabelo do outro (risos)… eu fugi, não deixei (cortar o cabelo). É importante dar essa relaxada no fim de um campeonato.

BRMX: Vocês vivem muita tensão durante o ano?
Hector Assunção: Por morarmos todos meio perto, treinarmos juntos, acabamos ficando mais sossegados. Eu disputei o campeonato com o Paulo (Alberto), mas a gente treinava junto, ele andava na minha moto, eu andava na dele. Não tinha segredo nenhum. Somos bem amigos, não tinha rivalidade. Até brincamos no sábado (em Toledo), quando a gente estava comendo churrasco e tinha umas linguiças bem gordurosas. Eu falei pra ele: “se você comer isso aí, eu como também” (risos), brincando… o clima da equipe estava bem legal, o que deixou as coisas mais tranquilas, o campeonato mais sossegado, menos tenso.

 

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Hector Assunção – Foto: Mau Haas / BRMX

 

BRMX: Você segue na MX2 em 2015?
Hector Assunção: Sim, vou defender o título.

BRMX: Já renovou o contrato com a Honda?
Hector Assunção: Verbalmente sim, falta assinar.

BRMX: Você foi campeão pela Honda em 2012. Em 2013 andou de Kawasaki em um esquema privado e acabou em quarto no campeonato. Voltou para a Honda em 2014 e foi campeão outra vez. O quanto faz diferença estar em uma equipe grande para alcançar bons resultados?
Hector Assunção: Acho que o mais importante é que na equipe grande você tem sempre moto nova. Tem moto boa pra treinar, tem moto de corrida competitiva. Tem reposição de peças. Em 2013, de Kawasaki, era moto original. Fui ter suspensão (preparada) depois da terceira etapa. Treinava só eu e meu irmão, tinha só duas motos. Depois da metade do campeonato, a moto já estava mais gasta, eu usava só uma. E na Honda é diferente. Tenho três 250 e uma 450. Tenho duas motos de corrida. Se uma der problema, tem a outra pronta. E você está em um time, isso dá mais confiança pra entrar na pista. Não que 2013 foi ruim, não quero dizer isso, tenho muito a agradecer à Circuit e a Bike Box, por exemplo, que me deram todo apoio em 2013, mas estar em um time como a Honda faz diferença.

BRMX: Você treina da 450 também?
Hector Assunção: Treino. Eu gosto e ela ajuda a dar mais velocidade, mais força. Não pode andar demais, se não você acaba ficando preguiçoso. A moto tem motor, é só dar mão que ela vai (risos).

BRMX: Você é daqueles que treina muito ou é mais tranquilo?
Hector Assunção: Tem que treinar o certo. Não adianta treinar demais, nem de menos. Tem que ser o ideal. Esse ano veio um sul-africano nos treinar. O pai dele já treinou o Tyla Rattray, por exemplo. Passamos a treinar o certo, não em quantidades absurdas.

BRMX: Ele trabalhou com toda equipe?
Hector Assunção: Sim. Chegou no segundo semestre e ficou aqui uns três meses. Treinou eu, o Jean Ramos, o Paulo Alberto, o Adam Chatfield.

BRMX: Foi tua primeira experiência com um treinador?
Hector Assunção: Teve o Rodney Smith também, em 2012. Mas (o Rodney) passava mais técnicas, tipo como em um curso de pilotagem. Este agora foi um pouco diferente, foi mais tipo o Aldon Baker, um cara que passava o dia com a gente, dizia o que comer, como fazer academia, tudo.

BRMX: Como é o nome deste sul-africano?
Hector Assunção: É Shaun White.

BRMX: Esse treinador mudou muito a tua rotina?
Hector Assunção: Bastante. A rotina do brasileiro é chegar na pista e fazer duas baterias de 30 minutos e ir embora. Ele mudou isso. Mudou também alimentação, academia. Mudou do 8 para o 80. Ele dizia que não adianta ficar fazendo baterias de 30 minutos ao longo do campeonato. Você tem que fazer manutenção e treinar a sua velocidade. Eu fazia treinos de 15min, 20min, mas era intenso. A gente fazia corridas na pista de Indaiatuba. Eu, Jean, Paulo, Adam, Gustavo Pessoa. Largava todo mundo e era 20min de pauleira. Isso nos deu clima, ritmo de corrida durante toda temporada.

 

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O último pódio da temporada, em Toledo, Paraná – Foto: Mau Haas / BRMX

 

BRMX: Antes de Santa Maria (quando Thales Vilardi e Paulo Alberto não completaram baterias), o quanto você acreditava que poderia ser campeão?
Hector Assunção: Comecei o ano de igual para igual com os dois. Acho que não perdia em nada pra eles. Mas, treinando em casa, acabei machucando o pé, o mesmo pé que eu quebrei em 2011. E já fui pra segunda etapa com menos confiança. Qualquer encostada que eu dava no chão, torcia o pé. Fiquei 15 dias sem treinar e isso me prejudicou. Mesmo assim, fui regular e isso me ajudou. Cheguei em Santa Maria dependendo só de mim. Se eu ganhasse todas as baterias até o fim do campeonato, seria campeão. Era difícil, mas tudo poderia acontecer, como aconteceu.

BRMX: Mas teve um momento que você se viu campeão? Aparentemente, a briga pelo título estava só entre Paulo e Thales.
Hector Assunção: Eu passei a acreditar que era possível depois de Paty do Alferes. Andei melhor que os dois lá. Tanto que na bateria que aconteceu no sábado (válida pela etapa de Pedra Bonita), eu larguei em quinto, passei todo mundo, cheguei no Paulo, não ultrapassei ele, mas estava bem a vontade. No domingo, a mesma coisa. Eu caí na largada, vim, passei todo mundo, passei o Thales na última volta e cheguei no Paulo, mas não passei. Só que na última volta da corrida eu fiz minha melhor volta. Virei em 1min54seg e o restante estava virando 1min59seg. Eu estava muito rápido e voltei a acreditar. Vi que estava na mesma velocidade que eu tinha no início do ano.

BRMX: A tua pior corrida foi em Canelinha. O que aconteceu?
Hector Assunção: Sim, acabei caindo em cima do Fabinho (Santos). Fiquei em nono, perdi alguns pontos. A moto ficou sem freio dianteiro. Na hora que eu voltei do tombo, estava lá pra trás. Continuei sem freio e acabei em nono. Fora isso, meu pior resultado foi um quarto. O resto foi sempre terceiro, segundo ou primeiro. Ganhei três etapas, o Thales ganhou duas e o Paulo ganhou três. E na última etapa, que eu precisava ganhar, fui lá e ganhei mesmo. Queria provar pra mim mesmo que eu tinha velocidade para ser campeão.

BRMX: Você também contou com vacilos, erros, quebras de seus adversários. Ter sorte faz parte?
Hector Assunção: Sim, mas você faz a sua própria sorte. Se você estiver trabalhando direitinho, fazendo a coisa certa, pensando em ser campeão, a sorte vem. E ser do bem! Ser do bem ajuda bastante a ter sorte.

 

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Hector Assunção em Campo Grande, Mato Grosso do Sul – Foto: Mau Haas / BRMX

 

BRMX: Você vai fazer pré-temporada fora do Brasil?
Hector Assunção: Acho que não. Acho que o Shaun White vem em janeiro para fazer a pré-temporada com a gente. Ir pra fora é muito caro. Tem que comprar moto, alugar casa, comprar comida, pagar pista, seria um gasto muito alto.

BRMX: Carlos Campano, em entrevista ao BRMX, comentou que a diferença dos pilotos de Mundial diminuiu em relação aos brasileiros. Você concorda? Acha que está mais próximo deles?
Hector Assunção: Todos os brasileiros melhoraram bastante nos últimos anos. Em Trindade (16ª etapa do Mundial de Motocross 2014) eu consegui andar bem. Larguei no bolo e consegui me manter perto do Max Anstie um bom tempo. A minha melhor volta para a melhor volta do primeiro colocado foi de dois segundos. Ficou bem próximo. Tomei “meia pista” do primeiro em 35 minutos de bateria. Fiquei longe de tomar uma volta. É uma evolução, porque antes a gente geralmente tomava uma volta.

BRMX: A que se deve essa evolução?
Hector Assunção: Acho que a vinda dos estrangeiros ajuda um pouco e o fato de todo ano ter uma etapa do Mundial aqui também ajuda. A gente vai se acostumando com os adversários, vai se sentindo mais a vontade. Eu quando ando com os estrangeiros, me transformo. O que eles fazem eu quero fazer também. Só tenho a aprender. A gente consegue fazer. Querendo ou não, sabemos andar de moto, mas nos falta o dia a dia, a vivência. Talvez, fazendo uma temporada inteira no Mundial, a gente andaria entre os 10 tranquilamente.

BRMX: Você tem este sonho de fazer uma temporada inteira de Mundial ou AMA?
Hector Assunção: Seria bem legal. Todo mundo sonha com isso. Mas talvez eu já tenha passado da idade de ir para fazer carreira. Gostaria de ir, mas seria algo para realizar um sonho, para poder contar no futuro que eu fiz uma temporada completa. Se eu fosse agora, teria que entrar direto na MX1. Acho que para fazer carreira tem que ir muito cedo, mais novo que o Enzo (Lopes), por exemplo.

BRMX: Como você imagina o motocross brasileiro daqui a cinco anos?
Hector Assunção: É difícil falar. É até triste falar, mas hoje não temos muita renovação nas categorias de 65cc e 85cc. Antigamente a renovação era maior. O esporte era maior. Talvez por causa das motos dois-tempos, que eram mais baratas. Hoje em dia está difícil. Em 2005, 2006, o campeonato paulista tinha mais de 100 motos só na categoria Intermediária. Era grupo A, B e C nos treinos. É difícil dizer sobre o futuro. Espero que melhore. Eu estarei andando profissionalmente e espero que o esporte evolua.

BRMX: Você teria uma ideia do que precisa fazer para melhorar?
Hector Assunção: Acho que deveriam concentrar mais as etapas no Centro-Oeste, que queira ou não, a maioria dos pilotos está aqui. E tinha que melhorar a premiação pra aqueles que ficam entre 10º e 20º lugar, dando pelo menos uns R$ 1.000 pra cada um. Assim, o cara sai de casa e vai correr, porque ele sabe que pelo menos não vai ter tanta despesa. Ele consegue pagar o combustível, o hotel. Hoje em dia tem que pagar R$ 200 de inscrição, mais viagem, hotel, alimentação, fica muito caro e ele acaba correndo só o regional, ou anda só por hobbie mesmo.

 

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No Mundial MX, em Trindade, Goiás – Foto: Mau Haas / BRMX

 

BRMX: Qual foi a melhor etapa do ano?
Hector Assunção: A primeira foi especial pra mim. Eu não vencia desde 2012, aí cheguei em 2014 e ganhei na abertura. Fiquei tão feliz quanto quando ganhei o campeonato.

BRMX: Qual foi a melhor pista?
Hector Assunção: Acho que Limeira e Canelinha. A melhor pista é Canelinha, mas a chuva prejudicou, então a de Limeira ficou melhor.

BRMX: E a pior pista do ano?
Hector Assunção: Santa Maria. Era a pior pista, mas ela ficou boa de andar porque o terreno ficou bom e fez canaletas. Pedra Bonita tinha um visual interessante, mas o chão era muito duro, era uma pista perigosa.

BRMX: E no Arena Cross, o que aconteceu que você ficou fora da briga pelo título?
Hector Assunção: Eu gosto de andar o Arena, mas esse ano tive azar, não pontuei em duas etapas, mas nas outras fiz 2-2-1. Eu gosto de pistas com bastante pulo, sempre gostei. Gosto do estilo.

BRMX: E é um campeonato que pegou, não é?
Hector Assunção: É uma competição bacana. Tem mídia, se tornou um show, tem público. Eu gosto bastante.

BRMX: Foi especial ganhar a última etapa em cima do Blake Wharton, que é um cara conhecido do AMA Supercross?
Hector Assunção: Teve um gosto especial sim. Queira ou não ele já ganhou corrida no AMA SX e no pódio eu estava em primeiro e o cabeludo em segundo (risos). Foi legal olhar pro lado e ver ele ali.

BRMX: 2015 é um ano que todos estão colocando você e o Dudu Lima como os principais candidatos ao título na MX2. Já dá pra imaginar essa briga?
Hector Assunção: Sempre considero que cada ano será muito difícil. Tem que estar preparado para tudo. Vou me preparar mais para 2015 do que me preparei em 2014, independente de quem será o adversário. O que mais terá a perder no ano que vem serei eu. Todo mundo vai andar sem compromisso… se ganhar de mim, show de bola, se perder vai ser normal porque eu serei o número #1. Eu tenho a obrigação de ganhar, de ser campeão. Vai ser puxado.

 

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Hector Assunção em Pedra Bonita, Minas Gerais – Foto: Mau Haas / BRMX