Entrevista: Felipe Zanol conta detalhes da sua nova rotina como chefe de equipe

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Felipe Zanol, chefe da equipe que lidera o Brasileiro de Enduro FIM 2015 – Foto: Mau Haas / BRMX

 

Felipe Zanol está na lista dos melhores pilotos do motociclismo off-road brasileiro. Foi campeão do Rally dos Sertões, campeão brasileiro de enduro e de cross country diversas vezes, campeão português de enduro, medalhista de ouro no Six Days, e esteve entre os melhores do Rally Dakar. Quando recebeu a “chance de ouro” de sua carreira e foi integrar a Honda HRC para disputar o Dakar 2013, sofreu o grave acidente que lhe impediu que continuasse a ser um piloto de alto nível.

Mas isso é passado. Zanol está em uma nova fase. E é sobre isso que ele conversou com o BRMX no início do ano. A entrevista a seguir estava “na gaveta”, esperando o editor do site abrir, tirar o mofo, e publicar. Nunca é tarde para revelar um conteúdo tão interessante, no qual o multicampeão conta detalhes de sua recuperação e de sua vida pós-acidente.

Ainda se recuperando dos traumas daquele 4 de dezembro de 2012, quando caiu durante treinos nos Estados Unidos e perdeu diversos movimentos do corpo, ele agora toca sua vida como chefe da equipe Zanol Team Rinaldi ASW, montada por ele em parceria com a Honda do Brasil no início de 2014.

Atencioso, simpático e sorridente como em toda sua vida de 33 anos, Zanol se mostra, a cada nova entrevista, uma das pessoas mais interessantes para se bater um papo sobre motociclismo off-road. Confira!

 

BRMX: A última vez que te entrevistamos, você tinha acabado de voltar para o Brasil após o acidente nos EUA, em março de 2013 – relembre aqui. Depois disso você montou equipe, deu sequência ao trabalho. Como está sua vida agora?
Zanol: Consegui dar sequência no mercado, que é um mercado que estou envolvido há 15 anos. Consegui continuar com meus patrocinadores, que foram os mais importantes para dar sequência neste trabalho, pois eles acreditavam muito no que eu representava para o esporte. Estamos no segundo ano dessa formação de equipe, e tenho tentado entender um pouco mais para conseguir ter bons resultados e boa divulgação do Zanol Team.

BRMX:  Faz dois anos do acidente. É ruim pra você falar sobre este assunto?
Zanol: Não, não. Não tem problema porque eu não lembro de nada. Eu lembro de pouca coisa nos Estados Unidos. Eu fiquei dez dias em coma, está tudo apagado na minha cabeça. Fiquei nos Estados Unidos quase dois meses, acordei no dia 25 de janeiro, lembro eu voltando de avião, mas apenas alguns espasmos. Cheguei e comecei minha reabilitação. Tenho pouca memória disso, acho que minha cabeça estava tentando descansar um pouco para recuperar o cérebro. O que eu penso é o seguinte: eu sempre corri de moto e já tive alguns machucados, mas foram fraturas de braço, dedo, poucas coisas, eu não tinha, e acho que pouca gente têm, noção do que é uma lesão no crânio encefálico, que foi o que eu tive, o chamado TCE (Traumatismo de Crânio Encefálico), o tanto que isto demora, que custa para recuperar. Estou descobrindo agora. Não tive nem um conhecido, ninguém próximo, que teve algo parecido.

BRMX: Foi parecido com o Schumacher?
Zanol: Sim, acho que o maior exemplo é o Michael Schumacher. Ele teve exatamente o que eu tive, mas o negócio dele eu acho que foi bem mais sério porque ficou seis meses em coma. Eu emagreci 10 quilos em 10 dias, imagina o cara nesse tempo todo – Schumacher sofreu o acidente em dezembro de 2013, enquanto esquiava nos Alpes Franceses, e ainda segue em estado grave, respondendo apenas com os olhos, sem falar e caminhar.

BRMX: Você logo pensou em continuar no esporte, montar uma equipe?
Zanol: Foi uma negociação com a Honda. Eles me propuseram essa formação da equipe. E logo na sequência eu consegui vincular os outros patrocinadores que sempre tive, como a Red Bull, Rinaldi, a ASW, que continuaram comigo mesmo depois do acidente. Depois surgiram outros novos, que estão acrescentando muito à equipe. Ano passado foi um ano de estreia, com três pilotos. Agora são cinco. Tenho tentado moldar o time perfeito, mas ainda não sei se a quantidade correta são cinco, três, dois ou um, ainda não sei isso. Tenho tentado gradativamente acertar estes detalhes para que eu consiga montar uma equipe e ter ela funcionando como uma empresa.

BRMX: Você já voltou a andar de moto. Conte como foi.
Zanol: Fui em uma CRF 450X com um amigo, que é meu mecânico e fiel escudeiro, o Ricardinho. Dei umas voltas no asfalto do quarteirão no condomínio, daí parei e fiquei pensando “pô, gente, não é possível que eu ando de moto faz 15 anos e vou ter que ficar andando no asfalto”. Estávamos do lado da trilha, e decidi ir pra trilha. Então andei, andei, subi, subi, mas é difícil porque a velocidade que eu andava antes é a que eu quero andar hoje, mas não é a que eu sou capaz de andar hoje, pela deficiência que eu ainda tenho do meu lado esquerdo do corpo. E cometi um grande erro. Um cara que teve o acidente que eu tive, voltando a andar de moto, deveria andar pouco. Eu fui andar 2h30min, ao invés de andar de 10 a 20 minutos. Andei muito e foi ruim porque meu lado direito do corpo, que é o que eu tenho força, ficou muito retraído devido ao excesso de força que eu fiz. A terapeuta falou para eu tomar cuidado nisso, “pô, Zanol, pega leve porque se travar o lado direito aí vai ser trabalho dobrado”. Depois, fui fazer uma entrevista para a revista Promoto e dei um outro passeio de dez minutos e vi que eu sou capaz, mas eu preciso ajustar alguns detalhes, e essa recuperação com certeza em algum tempo consigo andar de moto, não como eu andava antes, mas andar de moto.

BRMX: Foi divertido?
Zanol: Foi uma superação enorme, que eu nunca tive na minha vida. Quando voltei para o Brasil, as notícias dos médicos diziam que se eu voltasse a caminhar já seria lucro. Voltar a andar de moto foi uma conquista maior do que um título de Sertões ou ser o melhor estreante de um Dakar, ou dez títulos seguidos do Brasileiro. Essa foi uma vitória conquistada com muito custo, essa foi realmente sofrida, mas estamos aptos para outras também.

 

:: Vídeo mostra trajetória de Zanol no Sertões 2012

 

BRMX: Psicologicamente, você superou totalmente o acidente?
Zanol: Cara, eu escutei muitas coisas no Hospital Sara, onde fiz meu tratamento no Brasil, de pessoas que fizeram tratamento junto comigo. Falavam sobre um problema que eu não me preocupava muito, mas minha família sim, que era a depressão. Você imagina um cara que foi campeão e teve os títulos que eu tive, e agora não poder continuar no esporte e nem dar sequência na vida. Mas consegui estar envolvido com esporte e sou muito grato a minha família, que me deu apoio, e à minha esposa, que não me abandonou. Eu ouvia histórias de pessoas que a família abandona, e sou muito grato aos meus pais e amigos que se aproximaram de mim pra me ajudar na recuperação. Isso com certeza fez uma diferença muito grande.

BRMX: Tem alguma fé religiosa?
Zanol: Eu sou um cara muito católico e creio muito em Deus. Sou muito grato a Ele por estar aqui com todos. Foi um ensinamento diferente que eu tive na minha vida. Então eu estou satisfeito, realmente realizado, moral pra cima e pensando em conquistar novos resultados e novos títulos de uma outra maneira, formar novos atletas, que é uma coisa que falta no Brasil, e passar a minha vivência para os outros pilotos. Eu comecei andando com moto ruim, velha, e eles têm motos boas, do ano. É uma vantagem.

BRMX: Você já está perto dos 100%?
Zanol: Eu vou chegar lá, não sei se daqui um ano, dois ou dez anos, mas eu vou ficar bom. E bom é ter uma vida normal, seja essa vida andando ou não de moto, caminhar e trabalhar normalmente, vivenciando as coisas normalmente, tendo a relação normal com as pessoas. Já estou bem próximo disso.

 

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Time formado por cinco pilotos – Foto: Mau Haas / BRMX

 

BRMX: Onde você quer chegar com a sua equipe?
Zanol: Eu não tenho pretensão ainda, não sobre onde eu quero chegar. Eu quero continuar desenvolvendo meu trabalho e acho que o objetivo principal é este, formar novos atletas e os colocar em um patamar onde nenhum brasileiro chegou, que foi perto de onde eu cheguei. Sair do Brasil para correr o Mundial e ficar em sétimo sem nunca ter corrido um Mundial, receber o convite de uma equipe para correr o Mundial de Enduro, coisa que eu nunca tinha visto um brasileiro conseguir, voltar para o Brasil e disputar de igual para igual com os principais pilotos de rally, ser convidado por uma equipe de fábrica da Honda que, tirando o Alexandre Barros que foi contratado pela HRC, nenhum piloto brasileiro chegou nem próximo disso. Quero mostrar para estes atletas o quanto você precisa trabalhar, o quanto eu trabalhei na minha vida inteira, mostrar para eles o caminho que eles precisam percorrer para estar nesta situação. Vai depender deles fazer isso ou não, mas eu faço minha parte mostrando para eles o quão difícil é chegar neste patamar.

BRMX: Sua equipe hoje é só enduro. Pensa em partir para o rally também?
Zanol: Corri e vivenciei o que poucos pilotos brasileiros vivenciaram no rally, mas é algo para o futuro. Ainda não consigo enxergar isso. Acho que no Brasil ainda não temos pilotos prontos para despontar no rally, acho que temos que formar, degrau por degrau. Pensar em caras que possam vir do motocross para o enduro e para o rally, que é top da carreira de qualquer atleta, e é onde costumam se aposentar. Eu vejo que os atuais campeões mundiais de enduro vieram do motocross, coisa que não acontece aqui no Brasil.

BRMX: Como está o Enduro no Brasil hoje?
Zanol: Eu tenho um sonho que é correr o Mundial de Enduro aqui no Brasil. Eu não estou correndo, mas o sonho continua com a equipe. Era pra ter uma etapa do campeonato mundial aqui no Brasil em 2012, mas ficou inviável a realização do evento. Mas o sonho persiste e isso vai colocar o Enduro em outro patamar. A Honda me designou a formar uma equipe, a KTM voltou, a Husqvarna voltou, e acho que o enduro está se fortalecendo. Tem a Sherco, a GasGas, a TM, são marcas que tem tudo para fazer o enduro chegar a um patamar nunca alcançado.

BRMX: O que falta ao enduro brasileiro?
Zanol: Profissionalização dos organizadores, contratação de uma assessoria de imprensa boa, acho que são coisas que vão acrescentando e ajudando a ficar em um patamar mais alto de divulgação, trazendo mais retorno. A gente sabe que a captação de patrocínio é em cima de retorno, e hoje a dificuldade em conseguir patrocínios para o enduro é porque não tem retorno. Quando a gente estiver colocando o enduro no patamar e com retorno com exposição na mídia, fotos e produção de material bacana, eu tenho certeza que vamos ter mais patrocinadores e atletas vindo para o enduro.

BRMX: A experiência com a HRC está sendo trazida pra dentro do seu time?
Zanol: Tento trazer o máximo. Ano passado eu estava um pouco distante da preparação dos atletas e da equipe, e hoje tenho tentado estar mais dentro disso, tenho acompanhado e feito os treinamentos em Belo Horizonte, chamado os atletas para fazer isso. Eu vejo e sinto que tem uma probabilidade grande de os atletas evoluírem bastante, e tenho tentado fazer isso gradativamente. E também tem o lado de gerente. Sempre fui um captador de patrocínio. São 15 anos vivenciando isso, tendo relacionamentos, tentando criar uma boa imagem com os patrocinadores e com as pessoas.

BRMX: A Red Bull é seu patrocinador pessoal, não da equipe, certo?
Zanol: É, foi um patrocinador que veio comigo no ano do meu acidente, ano em que estreei no Dakar, que foi em 2012, começando em 2011 no final do ano e foi comigo em 2012 e era uma aposta para que eu fosse um piloto destaque no rally. Eu estava partindo para este destaque, tanto é que fui contratado pela HRC para ser o piloto da Honda pra bater com os outros concorrentes na disputa pelo Dakar. Tive o acidente e a Red Bull foi um parceiraço, que continuou sendo um dos meus patrocinadores e que continua comigo até hoje, e temos pensado e tentado outros projetos e acho que devagar eu vou me adequando ao mercado nesta nova profissão. Tenho um exemplo, que é um cara referência pra caramba, que é o Stefan Everts, que foi milhões de vezes campeão no motocross, e continua completamente envolvido no esporte em outra função.

 

Felipe Zanol - Action
Zanol em ação – Foto: Red Bull Content Pool