David Luongo: “no momento, diante da situação que o mundo vive, tudo é possível”

David Luongo é diretor da Infront Moto Racing, empresa responsável pela organização do Mundial de Motocross 2020

 

Recentemente a revista britânica Otor Magazine conversou com David Luongo, diretor da Infront Moto Racing, empresa responsável pela organização do Mundial de Motocross 2020, para saber mais detalhes sobre a situação do campeonato diante da pandemia do novo coronavirus, além das expectativas para o restante da atual temporada. Confira a tradução na íntegra.

 

Sabemos que é difícil responder, mas o quão esperançoso você está com o recomeço do Mundial de Motocross 2020 no mês de junho?

Já estamos cogitando novas atualizações no calendário, mas sempre trabalhamos com o seguinte pensamento: “é aqui que vai começar e é aqui que vai terminar”. Mas é impossível tomar uma decisão agora. Estamos monitorando essa situação (do coronavírus) diariamente.

 

Qual seria na sua opinião a quantidade de GPs considerada satisfatória? Existe um número mínimo para ser considerado um “Campeonato Mundial de Motocross”? No caso da MotoGP, os organizadores falaram no mínimo 13 corridas…

É inapropriado dizer uma quantidade mínima porque estamos trabalhando para realizar o campeonato na sua integralidade. É complicado responder essa pergunta porque ainda é cedo para dizer o que será possível. Se eu falasse numa quantidade mínima estaria mentindo, mas olhando para o desenrolar dos acontecimentos, ainda estamos confiantes de que teremos um campeonato muito decente e profissional.

 

Mas o presidente da FIM já falou sobre retomar a temporada 2020 somente em janeiro de 2021. Essa é uma opção desejável para o Mundial de Motocross?

Teoricamente é sim possível por causa do nosso contrato com eles, mas no momento temos que pensar um GP de cada vez e isso envolve também os organizadores locais das corridas. O motocross é um esporte ao ar livre e na hora de escolher as novas datas dos GPs cancelados analisamos também as estações climáticas, sempre que possível procuramos realizar as corridas com tempo seco, para garantir que pilotos e público tenham o melhor espetáculo possível. De dezembro em diante é complicado realizar corridas na Europa por causa do inverno, até a manutenção das pistas é mais complicada, mas no momento, diante da situação que o mundo vive, tudo é possível.

 

Você já pensa em 2021? A temporada poderia começar mais tarde no calendário? Ou você acha que dá para manter como é hoje, começando no final de fevereiro?

O restante da temporada 2020 será excepcionalmente difícil. Uma temporada difícil exige decisões difíceis. Se tudo voltar ao normal, iniciaremos em fevereiro de 2021, como sempre foi até agora. E com certeza é assim que esperamos fazer.

 

Como tem sido falar com os organizadores locais dos GPS? Qual é o sentimento geral deles?

Posso dizer que a família do motocross está muito unida neste momento e estou muito surpreso. Todos os organizadores estão trabalhando muito para salvar e organizar suas corridas, e isso é muito bom. Dependemos do que acontece com a expansão da pandemia e também das decisões dos governos país a país para reabrir fronteiras e mercados. Hoje estamos em uma zona cinzenta. Todos estão motivados a encontrar soluções, mas é muito cedo para ter uma visão clara do que acontecerá em três ou quatro meses.

 

Você consegue imaginar GPs sem público, com portões fechados, apenas para cumprir o calendário?

Para mim isso seria muito complicado, porque os organizadores dependem muito da renda dos ingressos. Os nossos direitos de TV são bem diferentes dos principais esportes, então ficaria complicado para eles (organizadores) cobrirem seus custos. O maior gerador de receita para os organizadores é a venda de ingressos. Então acho que corridas sem público seria uma péssima solução.

 

Esse está sendo o episódio mais difícil que a Infront Moto Racing já enfrentou como empresa?

Neste momento, você precisa pensar nos seus funcionários e na indústria do motocross. Queremos fazer o possível para salvar o campeonato e realizá-lo da forma mais profissional possível, porque queremos que os pilotos sintam que eles realmente merecem o título de campeão mundial. Somos responsáveis por mais de 3.000 pessoas que trabalham no paddock; marketing, mecânicos, equipes, jornalistas, todos que dependem deste campeonato. É uma missão para nós fazer o nosso melhor e promover a maior quantidade de corridas e garantir a maior quantidade de empregos possível. É uma grande responsabilidade e estamos prontos para lutar por ela. Em 2008 também tivemos uma crise para administrar e passamos por ela e o campeonato continuou a crescer. É um momento muito difícil, mas temos que continuar positivos. Na Infront Moto Racing temos 150 funcionários e estamos motivados para fazer esta temporada, mesmo que isso seja um desafio. Será uma temporada muito compacta, mas temos que faze-la.

O Mundial de Motocross talvez seja mais flexível do que outras das maiores competições mundiais, como F1, MotoGP e até o AMA Supercross, que depende da disponibilidade dos estádios. Essa é uma vantagem para colocar as corridas em funcionamento?

Sim, talvez sejamos mais flexíveis do que os esportes mais prestigiados ou os campeonatos que precisam de um estádio ou de um autódromo, mas realmente dependemos das decisões dos governos e das leis. Se tudo voltar ao normal como antes, terei poucas preocupações, mas a grande questão é quando tudo vai voltar ao normal. Quando tivermos essa resposta, saberemos quais GPs poderão ser realizados.

 

O Motocross das Nações 2020 está marcado para os dias 26 e 27 de setembro. Atualmente, existem cinco GPs programados para ocorrer após essa data, por causa da pandemia do coronavírus. Você considera um aspecto positivo ele ser realizado num local que vocês já conhecem (ao invés de um circuito novo e desconhecido)?

Acredito que sim, mas acho que é a primeira vez em 10 anos que nos preocupamos com o Nações, porque a multidão sempre foi fantástica. Eu acho que estar em Ernée ajuda muito e com certeza os fãs franceses são ótimos. Tenho certeza de que eles estarão lá, apoiando a equipe francesa. É um local especial. Está sendo um ano estranho, mas o Motocross das Nações é o maior evento do ano, por isso ainda estou muito confiante de que será um grande sucesso e deverá chegar no momento em que esperamos que tudo esteja de volta à normalidade. As pessoas, incluindo nós, vão querer estar assistindo motocross quando tudo isso acabar e a vida normal recomeçar, então acho que teremos um ótimo Nações este ano.

 

Para finalizar, a edição 2020 pode ser considerada um teste para futuros agendamentos do Nações (que nem sempre precisa ser na mesma época do calendário)?

Com certeza. Embora isso esteja longe de ser o que queríamos, seremos obrigados a fazer este teste em 2020. Tenho certeza de que será um sucesso e uma boa experiência para o futuro … mas, sinceramente, temos muito mais em que pensar quando se trata de modificar o futuro. Veremos se o Nações pode ser adaptado em um ano normal, sem as animosidades de 2020.