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Como a participação de estrangeiros ajuda ou atrapalha a evolução do motocross brasileiro

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Espanhol Carlos Campano mostrou muita superioridade na abertura do Brasileiro 2012 – Foto: Elton Souza / BRMX

 

A presença de ‘gringos’ no MX brasileiro não é novidade. Em 1985 vieram os primeiros que revolucionaram o esporte no país. Eram dois norte americanos, Kenny Keylon e Rodney Smith, este último, campeão brasileiro em 1986.

Ainda na década de 80, quando o motocross cresceu muito e muito rapidamente, patrocinado por grandes empresas de cigarro como a Marlboro e Hollywood, correram em nosso solo os também norte-americanos Gene Fireball, Craig Cannoy, Brian Belew e o espanhol Jordi Elias.

Já na virada do século, Anthony Pocorobba venceu o campeonato brasileiro de 1999, e competiu também em 2000 (perdendo o título para Chumbinho). Mais recentemente, em 2010, o campeão brasileiro também era norte-americano – Scott Simon.

De lá para cá vem crescendo o número de estrangeiros competindo por aqui. No ano passado foram 11 participantes entre Brasileiro e Arena Cross. Um espanhol ganhou o motocross e um inglês embolsou o Arena.

Em 2013, confirmados até o momento, são seis. Na MX1 alinham o espanhol Carlos Campano e o venezuelano Humberto Martin, da Yamaha Grupo Geração, além do inglês Adam Chatfield (IMS Racing) e o português Joaquim Rodrigues (Honda Mobil).

Já a MX2 contará com a presença do estadunidense Sean Lipanovich (LS Racing) e do português Paulo Alberto (Honda Mobil).

 

Isso é bom ou ruim para o esporte brasileiro?

Único título de expressão que falta a Chatfield no país é o Brasileiro MX – Foto: Elton Souza / BRMX

 

De acordo com a enquete realizada pelo BRMX, mais de 80% do público é favorável à vinda de pilotos estrangeiros, mostrando boa receptividade das arquibancadas para os gringos. Muitos pilotos têm a mesma opinião.

O goiano Wellington Garcia (MX1 – Honda Mobil) acredita que “a vinda dos estrangeiros fez o nível dos brasileiros subir bastante. Lembra que o Campano saiu de último para vencer a primeira etapa lá em Carlos Barbosa? Acho que no final da temporada ele já não conseguiria mais fazer isso. Ele veio de um nível muito superior ao nosso e nos pegou de calças curtas. Daí todos nós passamos a treinar muito mais”, disse em entrevista ao BRMX no fim de 2012.

Wellington Valadares, proprietário da IMS Racing, equipe do inglês Adam Chatfield, e chefe da equipe Honda Mobil, que neste ano conta com dois portugueses no time, reforça a ideia de que os brasileiros deveriam aproveitar a vinda dos gringos para evoluir, como descreveu na matéria publicada dia 18 de outubro de 2012, no BRMX, quando da contratação dos portugueses Hugo Basaúla e Paulo Alberto para correr o Arena Cross.

– Acho que os brasileiros devem se espelhar como nós fizemos no passado, quando o Rodney (Smith) veio para o Brasil. Eu corria sem apoio nenhum, tinha que fazer tudo, não tinha nem mecânico, cozinhava, arrumava a moto, dirigia, era sozinho. E com isso nós crescemos, o motocross cresceu no Brasil. Agora, essa vinda de estrangeiros pode ajudar novamente. Não precisa ir pra fora fazer intercâmbio, o intercâmbio está aqui – compara.

– (2012) Foi um ano muito bom para a gente alcançar essa evolução. Mudou até treinamento. Nunca tinha treinado tanto. Foi um ano muito forte. Não só eu comentei que tava treinando mais e não tava satisfeito. Acho que dá pra brigar com Campano. É como quando eu vou a um regional. Deixa eu andar lá o ano todo, os caras vão evoluir também e vão me acompanhar – acrescenta Garcia.

Milton “Chumbinho” Becker concorda com a evolução, mas faz algumas ressalvas. Chumbinho viveu os dois lados. “Sofreu” com a vinda dos gringos ao Brasil e “foi o gringo” na Argentina em 1995, quando correu e venceu o nacional na terra do papa Francisco I.

– Para evoluir não basta treinar junto. É preciso todo um conjunto de fatores, como nutricionistas, médicos, etc. Essa estrutura não é barata. Então, o apoio da equipe é fundamental para que a evolução ocorra da forma que se espera. Só treinar junto com os caras não traz evolução muito grande. Vai muito além disso. Em 1999 o Pocorobba chegou aqui andando quatro segundos mais rápido. Em 2000, eu consegui vencê-lo, mas foi preciso um trabalho enorme para isso, com um grande apoio da equipe e um grande esforço pessoal e dedicação –  relembra o multicampeão.

Chumbinho também levantou a questão da desvalorização dos brasileiros em relação aos gringos:

– Eles (gringos) não vêm de graça. Custa caro trazer um estrangeiro, tanto pelo salário quanto pela estrutura que os cerca, o que acaba reduzindo a verba da equipe e tira espaço de pilotos brasileiros, por isso tem que ter regras, proporção – pede.

Quanto a participação de estrangeiros, o regulamento do Brasileiro de Motocross 2013 diz que a equipe que contratar um piloto de outro país deverá ter pelo menos um brasileiro para a categoria MX1 ou MX2. O estrangeiro deverá ser filiado a uma federação estadual.

– Foi uma batalha dura da associação dos pilotos junto à CBM. O ideal, que defendi, mas fui voto vencido, seria de dois para um, para não ter uma desvalorização tão grande dos brasileiros. E essa regra tem que ser seguida e cobrada com seriedade – diz Chumbinho.

Para então comparar com a época que ele foi à Argentina:

– Minha preocupação é que aconteça aqui o que houve na Argentina nos anos 90. Eu, o Cássio Garcia e o Rogério Nogueira, mais alguns americanos, corríamos lá e o campeonato era muito forte. Quando os estrangeiros não participaram mais, o campeonato acabou, ficou muito fraco. Por isso defendo que a proporção deveria ser maior aqui, e também a valorização dos brasileiros, para quando os gringos saírem, o campeonato continuar forte e também atrativo ao público – explica.

Sandro Garcia, diretor da equipe Yamaha Grupo Geração, concorda com as preocupações de Chumbinho e pede para que os organizadores dos eventos se aproveitem da força do nome dos estrangeiros para fazer o motocross brasileiro se transformar em um espetáculo.

– É importante a vinda dos gringos. Deveria vir até mais. Temos que pensar como o AMA Supercross. Aquilo lá é um espetáculo e não tem restrições a estrangeiros. Ou no próprio futebol, jogadores de vários países jogam no campeonato brasileiro. E assim por diante. Tinha que ter uns 30 estrangeiros no Brasileiro de Motocross. E os dirigentes deveriam aproveitar isso para chamar mais público, mais patrocinadores, mais mídia. Aí o esporte iria crescer – argumenta.

– Por outro lado, também acho que o esporte “murcharia” se os gringos fossem embora agora. O que temos que fazer é criar condições para que eles fiquem. Se o campeonato foi interessante, importante, eles vão ficar, e o esporte vai continuar evoluindo, os pilotos brasileiros vão continuar evoluindo – acrescenta.

O responsável pela vinda do espanhol Carlos Campano, também responde sobre a diferença de investimentos em um piloto gringo.

– O salário do Campano no ano passado era do nível dos pilotos brasileiros, assim como é do Machito e eu acredito que seja o do Adam, ou dos portugueses da Honda. Neste ano que o Campano vai receber um pouco mais, o que é justo pelo excelente trabalho que ele fez em 2012 – explica Sandro Garcia.

E você, o que pensa sobre o assunto? Deixe sua opinião nos comentários abaixo!

 

Paulo Alberto representa a Honda Mobil na MX2 – Foto: Vipcomm / Luiz Pires

 

 

Confira o perfil dos gringos que correrão no Brasil em 2013

MX1
Carlos Campano (Espanha)
Cidade natal: Sevilla
Numeral: 115
Principais títulos: Campeão mundial MX3 (2010), campeão brasileiro (2012) e campeão espanhol
Equipe no Brasil: Yamaha Grupo Geração

 

Humberto “Machito” Martin (Venezuela)
Cidade natal: Caracas
Numeral: 101
Principais títulos: Campeão venezuelano
Equipe no Brasil: Yamaha Grupo Geração

 

Adam Chatfield (Inglaterra)
Cidade natal: Market Lavington
Numeral: 407
Principais títulos: Campeão da Superliga Brasil de MX2 (2011), campeão do Arena Cross 2012, campeão do UK Arenacross 2013.
Equipe no Brasil: Vulcano Ipiranga IMS Racing

 

Joaquim Rodrigues (Portugal)
Cidade natal: Barcelos, Braga
Numeral: 108
Principais títulos: Campeão do Supercross de Madrid, campeão da Copa Alemã de SX, campeão portugues tanto de MX quanto de SX e diversas participações no AMA Supercross e Motocross.
Equipe no Brasil: Honda Mobil

 

MX2

Sean Lipanovich (Estados Unidos)
Cidade natal: Riverside, Califórnia
Numeral: 505
Recentes conquistas: Vice-campeão do Arena Cross 2012.
Equipe no Brasil: LS Racing

 

Paulo Alberto (Portugal)
Cidade natal: Leiria
Numeral: 211
Principais títulos: Tetracampeão português de supercross e tricampeão de motocross. Nos dois últimos anos, integrou a seleção portuguesa no Motocross das Nações.
Equipe no Brasil: Honda Mobil

 


* Marco Dotto Kohler estreia no BRMX com a reportagem acima. MDK também é sócio do site e um amante do esporte desde quando estava na barriga de sua mãe.