#tbt BRMX: Álvaro Cândido Filho, o Paraguaio

Paraguaio durante o Mundial de Motocross no Brasil, em 2013

 

#tbt BRMX apresenta entrevistas com grandes ídolos de gerações passadas do esporte.

Álvaro Cândido Filho é um paulista de 60 anos de idade mais conhecido pelo apelido de “Paraguaio”, por causa das raízes que criou no motocross do país vizinho, no início de sua carreira.

Paraguaio iniciou sua carreira no final dos anos 1970, vivendo seu auge durante toda a década de 1980 e início dos anos 1990.

Durante todo esse período, entre competições nacionais, internacionais e regionais, conquistou quase 40 títulos somando as categorias 125cc e 250cc.

Atualmente, Paraguaio mora em Sorocaba, acompanha um jovem piloto nordestino em início de carreira no motocross e, sempre que pode, disputa provas de motocross nas categorias destinadas aos veteranos.

 

Paraguaio, conte-nos um pouco da sua história no motocross. Como descobriu a paixão pelo esporte e como iniciou sua carreira?

Me chamo Álvaro Cândido Filho, nasci em São Paulo, na maternidade do Braz, em 11 de setembro de 1958.

Morava na rua Aurora, esquina com a Guaianases, no edifício Redenção, apto 21. Mais paulista que isso impossível (risos).

Em 1969, após terminar o ensino fundamental, me mudei para Assunção, no Paraguai.

Nos anos 70 comecei a aprender a andar de moto, com uma Honda Super Cub 50cc. Assim começou minha paixão pelas duas rodas.

 

O apelido “Paraguaio” surgiu naturalmente?

Lá no Paraguai também comecei minha carreira, primeiro pilotando na motovelocidade e depois no motocross.

Em 1976 começou o meu retorno ao Brasil. Disputei uma prova em Sorocaba com uma Yamaha AG 100 Fazendeira paraguaia, e acabei vencendo nas categorias estreantes e novatos, numa corrida com muita lama.

Tinha que empurrar muito nas subidas, pois ela não tinha força nem tração, mas foi muito legal.

Foi aí que surgiu o apelido “Paraguaio”, pois a moto era de lá e tinha estragado um pistão nos treinos e os amigos me ajudaram a colocar ela na pista. Foi demais!

Depois da prova em Sorocaba, fui para outra corrida, em Botucatu, que não foi muito boa para mim, pois caí nos treinos e perdi um rim (lá se foram meus sonhos).

Mas em 1979 reacendeu tudo de novo, quando negociei um carro por uma YZF 79 em Avaré, com meu amigo Nelson, que foi um “embalo” para a minha carreira.

No final de 79 disputei duas corridas no Paraguai, na categoria Estudiantes.

Eu era muito rápido, mas o presidente da Federação Paraguaia de Motociclismo na época, Wilson Abdala, me mudou de categoria.

No começo fiquei p… da vida, mas foi a melhor coisa que ele fez, já que terminei no top 5 do Paulista de Motocross.

Neste mesmo ano (79) fiquei com um pé aqui no Brasil e outro lá no Paraguai.

No final de 79, em dezembro, fui correr lá no Paraguai e venci a última corrida do ano.

O pessoal da Agrocenter Kawasaki me contratou, pois eu tinha que ser imigrante paraguaio há mais de 10 anos para poder correr por eles, conforme a lei do país.

Foi o que fiz, assinando contrato no final do ano e me sagrando campeão paraguaio de motocross em 1980.

O melhor de tudo é que eu vencia no Paraguai e investia no Brasil, disputando o paulista de motocross, pois não poderia marcar pontos em dois países diferentes (campeonatos nacionais), então escolhi disputar o paulista e assim foi.

Quais foram os principais títulos que você conquistou?

Ser um dos melhores na época do esporte e ser considerado hoje uma lenda viva do MX brasileiro foi para mim muito mais do que eu gostaria de ser.

Considerando minha carreira nos 80 até os anos 90, conquistei 37 títulos nas categorias 125cc e 250cc, dentre eles:

– Campeão paraguaio

– Campeão brasileiro

– Campeão paulista

– Campeão carioca

– Campeão do Hollywood Motocross

– Campeão do Motocross e Supercross das praias

– Campeão do Enduro das Praias em São Paulo e no Rio de Janeiro

– Campeão latino-americano e continental

– Vitórias em etapas do pré-mundial de motocross no Brasil

 

Quem foram seus principais adversários dentro das pistas? E qual deles foi o mais difícil? Por quê?

No paulista de 1980 tomei muito “pau” do Nivanor Bernardi e do Roberto Boettcher.

Não conseguia ganhar deles, me faltava experiência, a qual adquiri no decorrer daquela temporada, indo disputar o Latino Americano de Motocross no Chile, em setembro.

 

Disputa com Rogério Nogueira em 1990

 

Qual foi o momento que mais lhe marcou positivamente na carreira?

Sem dúvida o Latino Americano de Motocross no Chile. Foi uma grande aventura, difícil, porém gloriosa, onde tudo mudou na minha vida.

Fomos de carro. Eu, um piloto paraguaio da Honda e dois mecânicos, e um outro mecânico foi de avião.

A Argentina nos quebrou na ida, estava tudo muito caro, cheguei lá “duro” (risos).

Estava há 3 mil km de Assunção e há mais de 4 mil da minha casa em Sorocaba.

Este campeonato foi a minha consagração como piloto profissional. Disputei seis corridas em três pistas diferentes.

Foram 15 dias de competição e uma semana de ida e volta nas estradas. Minha moto era a única refrigerada a ar ainda.

O Moronguinho recebeu duas Hondas Mugen “top das galáxias”, estava bem treinado e bem patrocinado e foi campeão.

Eu tive a oportunidade de vencer duas provas, mas por falta de experiência não consegui ser campeão.

Tomás Goinguer, da Venezuela, piloto da Yamaha Venemotos, foi uma pedra no meu caminho também (risos), mas consegui ganhar várias baterias dele, porém, um resultado ruim na primeira corrida me deixou com a terceira posição no campeonato.

Tomas foi o vice e o Morongo o campeão. A Honda tinha investido forte, cada moto daquelas custava 15 vezes mais que uma original de série.

Foi um sucesso tudo o que aconteceu e depois da primeira corrida já havíamos ganhado dinheiro para nos sustentar no Chile, por causa dos bons resultados.

O piloto paraguaio que era meu companheiro de equipe ficou entre os dez no campeonato também, voltamos com dólares no bolso e felizes com nossos resultados.

Antes de ir, corri a quinta etapa do paraguaio venci. Estava na ponta em duas categorias. Voltei do Chile faltando duas etapas para o fim do campeonato.

Fiquei 15 dias direto no Paraguai, me sagrando campeão nacional de motocross nas categorias 125cc e 250cc.

Quando voltei para o Brasil, cheguei de madrugada, meu filho Alisson tinha nascido poucas horas antes, outra alegria para mim.

Aí fui chamado pela Honda para uma conversa e acabei sendo contratado pela Constar para correr por eles no ano seguinte, indicado pelo diretor da HRC, que estava no Chile.

 

E qual mais te marcou negativamente?

Foi quando acabou meu ciclo no Paraguai, que na época era um dos campeonatos mais rentáveis.

Após o assassinato de Anastasio Somoza, em 1980 (ex-presidente da Nicarágua, na época exilado no Paraguai), o motocross passou por um duro golpe no Paraguai, reerguendo-se somente 30 anos depois.

Num aspecto geral, quais são as principais diferenças do motocross brasileiro nos dias atuais em relação a época que você competia?

O cenário nacional era propício para as duas rodas.

As fábricas estavam começando a se instalar no Brasil, chegaram em 1976, timidamente, mas no início dos anos 80 arrebentaram a boca do balão e nós fomos privilegiados, pois o MX chegou junto com esta evolução: grandes provas, patrocínios, público imenso, altos salários, enfim, época de ouro para o motociclismo de uma forma geral.

O futebol sempre foi e será o top dos esportes no Brasil, mas nós ganhávamos mais que os melhores jogadores de futebol hoje em dia.

Os jogadores quebraram a barreira do som em salários (risos) e os pilotos brasileiros viraram piada (risos).

 

Você ainda compete? E o que faz profissionalmente?

Comecei a voltar e participar de eventos há dois anos. Eu e um amigo (que se tornou um irmão), Rosivaldo RO #21 de Maceió, me convidou e lá fui eu ver uma corrida em Iati, Pernambuco.

Nem imaginava o que iria ver.

Foi show de bola, tudo top: corridas, pista, público e organização, e ainda venci a MX5, um presente dos céus (risos).

Sem falar no povo acolhedor e simpático, com muita vontade de motocross.

Valeu cada minuto que estive lá, fiz tantos amigos que nem imaginava fazer, já voltei muitas vezes e pretendo sempre voltar.

Logo na sequência comprei uma moto, uma KXF 250F, e comecei a brincar novamente.

Fui em algumas corridas na região, me divertindo, e nessas e outras conheci um piloto raçudo, que acelera forte, o “Guigão” (Wilguiner).

Deus colocou ele no meu caminho e começamos um trabalho tímido, com muitas dificuldades, porém, promissor e com dedicação chegaremos lá, eu espero (risos).

Acho que voltei a ser moleque (risos). Já fomos a tantos lugares correr que não dá para acreditar: Nordeste, Pará, Paraná, Goiás, Santa Catarina, Paraguai… vixe, tô maluco (risos).

Nestas aventuras, venci algumas corridas na MX3, MX4 e MX5, me divertindo com quase 60 anos e levando o Guigão para adquirir experiência.

Está naquela fase, anda muito, mas nos resultados ainda perde para ele mesmo, como eu perdia no começo da minha carreira (risos) e creio que todos somos assim, sem exceção.

A situação em que conheci ele foi complicada, mas aos poucos estamos alinhando as coisas.

Hoje tenho uma 450cc e ele uma 250cc, estamos bem melhor que no começo do ano, acredito nele e acho que pode dar muitas alegrias ainda.

Ainda vamos ouvir falar muito dele, se Deus permitir é claro.

E, na realidade, nunca parei de vez (de andar de motocross), sempre dou um tempo e volto novamente, mas tenho uma lâmpada acesa para o esporte que amo e que foi tudo em minha vida.

Fui profissional até o fim dos anos 1980, depois o tempo foi chegando e a idade também, é o esporte, é lindo, maravilhoso, porém é curto e temos que aproveitar as chances que surgem.

 

Paraguaio, o ídolo!

 

Na sua opinião, por que o motocross brasileiro não possui hoje o mesmo prestígio e reconhecimento que já teve em outras décadas?

Foi em 1985 que começou a decadência do MX brasileiro.

Pouco antes perdemos o grande responsável pelo nascimento do motociclismo brasileiro e criador de tudo que tínhamos, senhor Eloy Gogliano, presidente da CBM e do Centauro Moto Clube.

Uma pessoa fantástica, séria e com um prestígio inabalável na ULM (União Latino Americana de Motociclismo) e na FIM, querido, amado e respeitado por todos.

Infelizmente nos deixou e seus sucessores não foram e não tiveram nem de perto suas qualidades, e aí começou o nosso naufrágio em queda livre.

De lá para cá, o esporte perdeu o rumo, abrindo possibilidades que acabaram com as condições dos pilotos brasileiros serem competitivos ou respeitados como fomos no passado.

Tínhamos grandes campeonatos, público, mídia, retorno, etc.

Transmissão ao vivo em canal aberto na Band, média acima de 50 mil pessoas no público, todas petroleiras e tabaqueiras patrocinando, foi o momento mágico e mesmo assim morreu (e permanece morto até os dias atuais).

 

E o que está faltando para que os nossos campeonatos e pilotos possam um dia chegar no mesmo nível que o motocross se encontra nos Estados Unidos e na Europa?

Meu amigo, fiquei muitos anos longe das pistas e corridas, sem vontade alguma de ir ver o que estava acontecendo, pois me dói muito ver o que é o esporte hoje em dia, se acabando cada vez mais.

Tem misericórdia juntar categorias para encher o gate de largada!

Que empresas investem num esporte assim?

E o investimento nas categorias de base, que são o futuro do esporte?

Isso sem contar que, aqui onde moro, o campeonato paulista não existe há anos, temos um presidente que acabou com a federação e não a larga por nada neste mundo, além de uma confederação que aceita tal situação insustentável.

Isso é uma de tantas coisas que acontece em nosso esporte por este Brasil a fora.

Mas nem tudo está perdido e coisas boas se sucederam. O nordeste está na contramão do Brasileiro de Motocross.

Grandes provas, bem organizadas, público, pilotos, prêmios, retorno, etc, tudo top mesmo.

Velocross um sucesso em vários lugares, mas no sul do Paraná e Mato Grosso do Sul é o celeiro da modalidade, que cresce demais na região sul.

Goiânia, Pará, Amazonas, todos esses estados estão com corridas com prêmios tentadores e revelando bons pilotos.

E tudo isso porque temos pessoas que amam o MX, um esporte que mexe com o povo de todas as idades de uma tal maneira que só ele consegue fazer, isso é fantástico.

Paraguaio, muito obrigado pela entrevista e para finalizar, o espaço é seu.

Meu amigo, eu que agradeço pelo espaço.

Como você pôde notar, nosso esporte atualmente tem coisas erradas nas duas pontas, mas também tem coisas boas, mas enquanto não houver uma união de interesses/interessados, os problemas não irão se resolver.

Espero que tudo isso tenha solução um dia.