Adversários, pistas, evolução mental, boa fase: Jean Ramos é o piloto da vez

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Jean Ramos feliz com a vitória em Paty – Fotógrafo: Mau Haas / BRMX

 

Jean Ramos, 26 anos, chega a terceira etapa do Brasileiro de Motocross 2016 como líder do campeonato na MX1. Independe do que aconteça no próximo fim de semana, em Extrema, Minas Gerais, o paranaense é o piloto que começou melhor a temporada. Além da dianteira no Brasileiro MX, também lidera o Arena Cross Brasil na principal classe.

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Na noite de terça-feira, 12, o BRMX conversou com o atleta para debater alguns momentos desde início de temporada. A conversa rendeu uma entrevista cheia de informações relevantes. Confira!

 

Nos últimos 60 dias tivemos bastantes corridas no calendário brasileiro, entre Arena, Brasileiro de Motocross e alguns regionais. Com esse pouco espaço de tempo entre as etapas nacionais, muda muito teu treino?
Jean Ramos: Até prefiro. Ao mesmo tempo que é cansativo por causa das viagens, isso é menos cansativo para o teu corpo do que o treinamento. Se você não está competindo, você tá treinando duro, aí vai arrebentando o corpo, vai forçando. Não dá pra parar. Então, essa é a pior parte do calendário: esperar pra correr duas vezes, aí mais um ou dois meses para correr de novo. A pior parte é se manter em alto nível, então prefiro ter corridas. Até estou participando do Paranaense esse ano para manter o ritmo, ficar fazendo corrida, caída de gate é o que mais importa.

BRMX: Se tem corrida no fim de semana, você diminui a carga do treino?
Jean Ramos: É, você tem que chegar descansado para a corrida porque lá tem pressão, a tensão da corrida. O melhor treino é o da corrida, porque você está lá 100%. Desde sábado tu já está dando o teu melhor. Tem dois três treinos grandes, sente a moto, pode testar equipamento, essas coisas.

BRMX: Por isso que nos EUA, que tem corrida todos os fim de semana, os caras pegam mais leve durante a semana?
Jean Ramos: É, eles pegam duro na pré-temporada. Se arrebentam pra treinar bem em três meses, aí depois é mais manutenção, que é mais fácil.

BRMX: Você ganhou uma bateria em cada etapa do Brasileiro, ganhou as duas etapas no geral, e ganhou as duas baterias da quarta etapa do Arena. A que se deve esta fase de vitórias?
Jean Ramos: Conforme vai rolando o campeonato e você vai atingindo os resultados, a autoconfiança vai melhorando. Às vezes tem um lado negro na cabeça, mas conforme tu vai indo bem, vai eliminando. E começa a andar mais tranquilo. Nesta última etapa do Arena, eu tava bem nervoso porque sabia que era a etapa mais importante do campeonato, a etapa que tinha que dar 110%. Cheguei bem ansioso, bem nervoso, parecia que eu me sentia como no AMA Supercross, que por causa da pista eu ficava muito nervoso. Nos treinos me soltei um pouco, mas ainda estava bem nervoso. Aí assisti os treinos da MX2, dos meninos da Júnior, e aprendi muito com os erros deles na pista. Tentei minimizar isso nas corridas e deu certo. Era uma pista técnica. Consegui um pouco de vantagem em algumas sequências de saltos, nas costelas eu também era o mais rápido, então podia forçar mais nessas partes. Na pista de Arena todo mundo é igual, então quem errar menos se dá melhor.

BRMX: No Brasileiro de Motocross você também se destacou.
Jean Ramos: No motocross acho que as largadas têm sido fundamentais. Minha confiança e minha parte física têm melhorado. Acho que a minha parte de velocidade precisa melhorar um pouco ainda. Me sentia mais veloz ano passado. No motocross ainda está faltando um pouco da confiança que tive nesta última do Arena. Colocava a moto onde eu queria, fazia o que eu queria com a moto.

 

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Largada em Paty do Alferes – Fotógrafo: Mau Haas / BRMX

 

BRMX: A moto está 100%?
Jean Ramos: Mudamos alguns acertos para esse ano e consegui ser um pouco mais rápido, só que não me sinto confortável, brigo muito com a moto. Em Paty do Alferes tive problema com a moto de corrida e tive que pegar a moto que corri ano passado, mesmo ajuste de 2015. Aí percebi que é com essa moto que tenho que correr no motocross, que me sinto confortável e estou rápido. Mas a confiança é a base de tudo. Você confiar em você, confiar na equipe que tem por trás de você, meu irmão me assessorando dentro da pista, me dando dicas para melhorar na técnica. Na parte física o Shaun (White) sempre atento, perguntando como to me sentindo, se estou cansado. Então não é o trabalho de uma pessoa só, é o trabalho de uma equipe inteira.

BRMX: É perceptível que você, seu irmão e seu mecânico estão em sintonia.
Jean Ramos: Sim, o Jonas (mecânico) entrou na equipe esse ano para somar, assim meu irmão consegue me dar o apoio que eu preciso de fora da pista, olhando e assessorando. E o Jonas é um cara dedicado, que até briga comigo porque às vezes ele quer trocar a peça da moto e eu falo que não precisa. Acho que todo mundo está com a visão na vitória. Já vi o Carmichael dando entrevista falando que se você confia na sua equipe você tudo. Quando você tá sozinho, tua equipe não sabe o que está passando pela tua cabeça. Então meu irmão já sabe o que to precisando, meu pai já fala onde preciso melhorar. Dentro da pista às vezes o piloto fica cego, então é bom ter pessoas de fora para ajudar. O trabalho de todos eles têm feito muita diferença dentro da pista também.

BRMX: Quem é teu principal adversário neste ano?
Jean Ramos: Acho que em cada etapa um piloto se sobressai, consegue se adaptar melhor ao terreno, à pista, ou se encontra melhor. O Campano é um piloto duro porque ele é sempre 90% ou 100% em toda etapa. O 90% dele já é muito forte, o 100% dele é bem forte mesmo. O Paulo também é um piloto que quando larga na frente é muito forte. E o Jetro também. Acho que nós quatro estamos no mesmo nível.

BRMX: O que esperar de Extrema, uma pista totalmente nova?
Jean Ramos: Tenho facilidade para me adaptar a uma pista. Como no Supercross você é obrigado a se adaptar muito rápido na pista, e pegar o traçado rápido, são uns 5 minutos de treino, você pegou ou não tem que se virar. Acho que pelo tamanho do local (em Extrema), pelo que o pessoal falou, vai ficar uma pista mais travada, com curvas de 180 graus. É um estilo de pista que me agrada. Pista média, travada, é um pouco mais o meu estilo, acredito que posso me dar bem nesta etapa.

 

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Com Juliano (irmão) e Jonas (mecânico) – Fotógrafo: Mau Haas / BRMX

 

BRMX: E o MX das Nações? O que fazer este ano para evitar erros do ano passado?
Jean Ramos: Acho que vou um pouco mais solto, mais tranquilo. É preciso acreditar um pouco mais, arriscar mais. Ano passado fiquei com muito medo de cair. A pista tinha bastante dificuldade, bastante canaleta, bastante descida. Essa pista de Maggiora (na Itália, sede deste ano) é parecida, mas é um terreno um pouco mais duro. Então acho que será um pouco mais tranquilo em comparação ao ano passado. E a primeira vez é tudo mais estressante. Você não consegue se concentrar em você, começa a reparar em outras coisas. Agora vou estar mais focado em mim, e vou tentar dar o meu melhor no sábado. Classificando, vamos poder aproveitar mais no domingo. Classificar no domingo não depende só de você, depende de mais um piloto, então você pode estar ganhando e teu companheiro de equipe estar para trás e você se arriscando ao máximo e não conseguindo classificar o time. O foco dos três é no sábado. Fazer boas largadas e tentar ficar entre o 15º e 18º para classificar.

BRMX: Esse é o cálculo? Dois entre o 15º e 18º classifica?
Jean Ramos: Eu calculo sempre que 29 pontos é o limite. Dois em 14º já classifica. 28 pontos já sabe que está dentro. Vamos esperar o Fabinho fazer a bateria dele, esperar o Ramyller, e fazer o nosso trabalho também. Se precisar apertar mais, com certeza estarei lá para dar o meu melhor e representar o Brasil da melhor forma.


BRMX: Ainda tem vontade de fazer uma temporada completa no exterior?
Jean Ramos: Vontade sim, mas agora já começo a pensar. Fazer o investimento que fiz há quatro, cinco anos, não faria. Mas se alguém me der a oportunidade de andar lá fora, e investir tudo que precisa, ficaria feliz e encararia essa.

BRMX: Mundial ou EUA?
Jean Ramos: É indiferente. Acho que me sairia um pouco melhor nos EUA, pelo estilo de pista, e tem o supercross. No Mundial talvez seja um nível um pouco abaixo, mas nesse degrau abaixo a gente tem 25 pilotos. E o AMA tem uns cinco pilotos um degrau acima, mas são estes cinco. Do sexto pra trás se vê que o pelotão começa a cair. Eles têm, talvez, a mesma velocidade, mas acredito que o preparo físico deles não seja tão bom quanto dos ponteiros e dos europeus. O americano é assim, um tanto mais preguiçoso, o estilo de corrida é diferente, é muita explosão. Eles puxam o máximo no começo, e no final eles vão diminuindo um pouco ritmo. Já no Mundial é mais constante.

BRMX: Em termos físicos e técnicos, esquecendo moto, que nível vocês estão? Já chegaram no top 10 do Mundial?
Jean Ramos: Acho que não. Acho que pra gente andar com esses caras, precisamos estar lá em contato com eles para adquirir experiência. Se eles viesses correr no Brasil com a mesma estrutura que a nossa, acredito que a gente teria condições de brigar de igual pra igual. Não digo igual ao Tim Gajser, Cairoli, mas um piloto de equipe privada que anda entre os dez, acredito que a gente teria condições de andar junto. Só que quando tu vai correr no Mundial, a pista é diferente, o jeito de correr é diferente, o buraco é diferente, a canaleta é totalmente diferente. Somos muito viciados nas nossas pistas daqui. Tem que abrir tua mente. Entender como que funciona correr. Mesmo se eu tivesse ganhando tudo aqui, não chegaria lá e andaria entre os dez. Acredito que no primeiro ano iria penar para começar a entender. O Campano, talvez, se a gente fosse andar numa etapa de Mundial agora, acredito que ele iria se sobressair mais do que eu, o Paulo ou o Jetro. Pela experiência que já teve, de saber correr nesse estilo de pista, ele iria melhor.

BRMX: As pistas no Brasil ainda estão muito atrás?
Jean Ramos: Acho que o tratamento está legal. A pista tá ficando técnica, estão fazendo manutenção na hora certa. Mas acredito que estamos correndo em espaços muito pequenos, em função do organizador não ter tanto espaço, e a pista fica travada. Lá fora você acelera a pista inteira, e aqui no Brasil trava muito. Precisa melhorar a media horária, ter mais velocidade. Também vejo nos EUA e na Europa fazem muitas corridas nos moto clubes, em pistas tradicionais, então fica mais fácil. O cara já tem a pista e vai evoluindo a cada ano. Mas questão de saltos e tratamento, evoluiu bastante.

 

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Jean Ramos lidera o Brasileiro e o Arena Cross – Fotógrafo: Mau Haas / BRMX