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“É arriscado, cansativo e, financeiramente, não compensa”, diz Wellington Garcia após anunciar aposentadoria

 

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Wellington Garcia encerra carreira aos 27 anos – Fotógrafo: Mau Haas / BRMX

 

A carreira de um atleta profissional geralmente é curta. Na média, acaba ao redor dos 30 anos de idade. Poucos conseguem manter a motivação para cuidar do preparo físico no nível de exigência que a rotina deles exige.

– A vida de atleta profissional é muito dura. Eu poderia ir mais alguns anos (em termos físicos), mas é muito complicado, vários fatores contribuíram para eu tomar esta decisão. Vou terminar o ano e depois me aposento da rotina de piloto profissional – disse Wellington Garcia, 27 anos de idade, em entrevista ao BRMX após anunciar sua aposentadoria do esporte profissional.

O piloto goiano dedicou 22 anos de sua vida ao esporte. Começou aos 5 anos de idade e viveu seu auge nos anos de 2007 e 2009, quando conquistou seis  títulos nacionais: quatro brasileiros de motocross, dois na MX2 e dois na MX1 (era permitido correr nas duas categorias), Brasileiro de Supercross em 2007 (categoria SX1), e Arena Cross em 2009 (categoria MX2). Também representou o Brasil no Motocross das Nações em três oportunidades (2007, 2008, 2009) e acumula diversos títulos estaduais, além dos troféus nacionais nas categorias de base, como o de 60cc em 2000 e o de 80cc em 2004.

Abaixo, você conseguirá entender melhor como é a vida de um piloto profissional, e quais os motivos que levaram Wellington a tal decisão.

 

BRMX: Quais seriam os fatores que lhe fizeram tomar a decisão de se aposentar?
Wellington Garcia: Uma das coisas é a rotina de treinos, que é muito cansativa. Você acaba abrindo mão de tudo. A outra é financeira. Se você não tem a motivação necessária, fica difícil. Financeiramente não é compensador (ser piloto profissional no Brasil). E isso é um dos principais fatores. Minha carreira é como uma empresa, e se esta empresa começa a ficar no negativo, não tem como continuar, tem que achar uma solução.

BRMX: Tem riscos também…
WG: Sim. O bom mesmo não é ser piloto profissional. O bom não é acordar todo dia cedo, correr 20km. O bom é curtir a moto. Isso consigo fazer sem gastar dinheiro. Para ser profissional, você precisa investir. E quando não tem mais o suporte financeiro pra andar na ponta, você acaba ficando pra trás. Não sou só eu passando por isso, o país vive este momento difícil. Muitos andam só pra pagar conta. Abri mão dos estudos pra ser piloto de motocross. Tenho que ganhar dinheiro. É minha profissão.

BRMX: Muitos não enxergam a diferença de ser piloto amador e piloto profissional…
WG: A partir do momento que você passa a ter a obrigação de fazer, fica mais complicado. Com vontade ou não, tem que fazer. Eu passei 14 anos dentro da Honda, e sempre ganhei um suporte muito bom. Mas sei que a empresa quer competitividade. Muitas vezes passei por muitas dificuldades, tive que me superar, fazer acontecer sem condições, sem saúde, sem vontade. Graças a Deus, consegui, fiz tudo, mas nunca foi fácil.

BRMX: O nível de competição também subiu muito…
WG: Eu tô me aposentando na melhor fase como piloto. Não tem outra fase na minha carreira em que eu era tão rápido quanto agora. Não ganhei tantas provas, mas estou preparado. Uma coisa ou outra tirou o rumo durante todo ano, o que faz parte. O piloto que comete menos erros, é o que vai ser campeão. Mérito dos outros que conseguiram, mas eu me sinto muito bem preparado porque o meu nível também se elevou depois da vinda dos estrangeiros.

BRMX: Antes era mais fácil? Exigia menos treino?
WG: O nível do Brasil subiu muito com a vinda dos estrangeiros. Não era fácil antes, todo mundo sempre andou no limite, mas as motos evoluíram, os pilotos aprenderam novas formas de treinar. Antigamente era mais fraco o nível. O nível subiu muito, mas a condição financeira pra isso não, o país não oferece esta condição neste momento. Você gasta mais, se arrisca mais, e ganha menos.

 

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Wellington Garcia no topo do pódio em Campo Grande, 2014 – Fotógrafo: Mau Haas / BRMX

 

BRMX: Esse lado, muitas vezes não é visto pelo público.
WG: As pessoas veem o momento do pódio, a glória. Mas poucos pagam o preço para estarem no pódio. E é muito alto, árduo. Não estou reclamando, não me arrependo. Sou muito feliz por cada momento. Consegui superar cada obstáculo, graças a Deus e com ajuda da minha família. Meu pai sempre soube me orientar. Sempre tive uma estrutura muito boa. Na Bulgária (quando sofreu um acidente grave), vi o quanto a família é importante. Ela larga tudo e vai cuidar da gente. E algumas coisas vêm pra fortalecer. Esse acidente me fortaleceu demais. Isso me fez bem, mas só percebi depois de algum tempo. Consegui voltar e vencer. Era pra ter aposentado naquele acidente já, mas ainda fiquei mais cinco anos competindo. Meu médico disse que eu estava voltando do zero, como se o corpo nunca tivesse feito atividade.

BRMX: Quais os planos para o futuro?
WG: Tenho a WG21 (loja de equipamentos esportivos) e há dois anos tenho parceria com a Açaí Vitanat, e agora vou distribuir o açaí aqui em Goiás. Também vou seguir com os cursos de pilotagem e o canal no YouTube. Batalhei muito pra aprender tudo, recebi algumas ajudas, e agora quero ajudar as pessoas a começarem sem cometer tantos erros. Quero ajudar o esporte a crescer.

BRMX: Vai seguir competindo em corridas menores?
WG: Sim. Vou continuar fazendo algumas corridas regionais. Gosto muito de andar de moto, mas agora vai ser por lazer.

 

 

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