Entrevista: Aldon Baker fala sobre Villopoto, Roczen, Cianciarulo, Carmichael, Bubba e muito mais

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Os três mosqueteiros de Aldon Baker – Foto: @aldonbaker Instagram

 

Aldon Baker, 44 anos, é o treinador de Ryan Villopoto, Ken Roczen e Adam Cianciarulo. Foi também de Ricky Carmichael durante oito anos e James Stewart por duas temporadas. É, com certeza, o treinador de maior sucesso do mundo na última década.

Na noite desta quarta-feira, 12, ele conversou com o BRMX por telefone. O relógio marcava 20h na Flórida – 21h no Brasil – e Aldon ainda estava trabalhando.

– Estava respondendo alguns e-mails, mandando algumas instruções aos pilotos, coisas de fim de tarde, coisas tranquilas – disse no início da conversa, que duraria pouco mais de 45 minutos.

O sotaque não esconde que Aldon é sul-africano. Ex-ciclista, estreou como preparador de pilotos de motocross em 2000, justamente com Ricky Carmichael. É casado e tem filhos. Vive na Flórida, onde também vivem seus três pupilos.

Com muita educação e bom senso de humor, Aldon respondeu as perguntas explicando como é sua rotina com estas três estrelas, como é, pela primeira vez, treinar dois rivais, falou do Brasil e do Mundial de Motocross, da aposentadoria de Ryan Villopoto, do futuro e do passado.

Confira!

BRMX – Imagino que você esteja bem ocupado com estes três pilotos, Ryan, Kenny e Adam.
Aldon Baker – Sim, tenho também um piloto que corre o Mundial de Superbike (Chaz Davies, da Ducati), ele vive na Europa, e então tem sido um pouco puxado. Todos eles têm programas diferentes (de treino)… mas tudo está muito bem e, obviamente, meu foco principal está aqui, com os caras do motocross.

BRMX – Aqui no Brasil seu nome já é conhecido, mas você poderia falar um pouco da sua carreira. Tudo começou com o Ricky Carmichael, certo?
Aldon Baker – Sempre fui um personal trainner, e também ciclista profissional. Quando me aposentei do ciclismo, um dos patrocinadores (Oakley) da minha equipe me fez conhecer Jhonny O’Mara, que estava inserido no mundo das mountain bikes. Ele falou de mim para Ricky. Eu não via Ricky como um atleta naquela época, já que ele parecia fora de forma, mas conversamos um pouco e ele aceitou, e disse que quando precisasse melhorar, iríamos conversar. Ele subiu (de categoria) e percebeu que precisava uma preparação melhor, mais adequada, e me procurou outra vez. Eu estava me aposentando (do ciclismo), era 1999, e aí em 2000, em maio de 2000, começamos a fazer um trabalho para a temporada de motocross daquele ano e para o Supercross de 2001. Então me mudei para Tallahesse (cidade de RC) e sentei com ele e conversei. Ele era muito jovem (tinha 20 anos), eu precisava lidar com isso, mas nos acertamos muito bem. E foi assim que começou.

BRMX – E você ficou com ele até o fim…
Aldon Baker – Sim, estivemos juntos a maior parte da carreira dele. Só não estivemos juntos na 125. Depois do segundo ano de 250 até a aposentadoria dele, em 2007. E daí fui treinar (James) Stewart por dois anos, e logo em seguida mudei para Ryan (Villopoto). E também tive envolvido com Nicky Hayden (campeão de Moto GP em 2006) por cinco anos.

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Com RC, no último ano, em 2007 – Foto: Arquivo pessoal

 

BRMX – Você sempre esteve com pilotos vencedores, mas agora você tem três pilotos vencedores. Seria este o melhor momento da sua carreira?
Aldon Baker – Acho que sim, acho que é o melhor momento, apesar de eu já ter trabalhado em outros momentos com outros caras da 250 também, como Blake Baggett, a quem tive que deixar por uma questão de agenda, de tempo. Com Kenny, Ryan e Adam vivendo aqui na Flórida, as coisas se encaixaram melhor. Provavelmente este tem sido o melhor momento. Kenny e Ryan estão em estágios diferentes de suas carreiras, e isso me possibilita trabalhar com os dois ao mesmo tempo. Se não fosse assim, seria muito difícil trabalhar com dois pilotos deste nível ao mesmo tempo. Um está no fim de sua carreira e outro está no início, e se renovando, mudando de categoria. E Adam está iniciando a carreira na 250. Então, há um bom equilíbrio. Eles trabalham bem juntos. E, com certeza, ter esta equipe é muito gratificante, e é também muito trabalhoso. Ter só um seria um pouco mais fácil, mas tem sido bom.

BRMX – E eles parecem se dar muito bem. Vimos isso pelo Facebook e Instagram.
Aldon Baker – Sim. Estamos sempre no mesmo lugar, fazendo as coisas juntos. Obviamente alguns treinos são diferentes, mas no geral é muito tempo juntos. Tentamos manter as coisas bem porque é um trabalho estressante, mas eles treinam muito duro e mantêm uma relação muito boa.

BRMX – Teve algum período ruim na sua carreira?
Aldon Baker – Acho que não. Claro que vivi momentos ruins, em que meus pilotos tiveram dias ruins, corridas ruins, ou momentos de lesão – a pior parte do esporte. E, para mim, o mais difícil é quando mudo de um atleta para o outro, o que é sempre uma situação delicada, você tem que tomar a decisão correta, de quem você vai pegar. São decisões difíceis, mas eu tenho acertado. Espero que continue assim.

BRMX – Você pilota também?
Aldon Baker – Costumava pilotar. Mas agora é melhor não pilotar mais. Tenho 44 anos e acho que é um pouco complicado andar nas mesmas pistas que eles estão pilotando. As pistas da Flórida são muito difíceis e isso não seria divertido para mim. E também porque tenho três pilotos e preciso observar cada um deles, ter certeza que estão fazendo tudo certo. Então, acho que é melhor não estar em uma moto. Já pilotei bastante, então sei como as coisas funcionam, e não preciso provar nada para ninguém fazendo isso. Estaria apenas me colocando em risco.

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Fazendo Bubba suar na academia – Foto: Arquivo pessoal

 

BRMX – Sobre o seu programa de treinos. Você trabalha apenas a parte física e técnica, ou vai além ajudando também no psicológico?
Aldon Baker – É tudo junto. Estou com eles o tempo todo. Eu programo o treino de cárdio, de academia, de pista, programo a comida, tudo, quantas voltas eles darão, quantas largadas farão, e monitoro tudo. E eu começo com o físico, porque o físico precisa estar bem para você ter confiança. E uma vez que eles sabem que estão bem preparados, o mental trabalha a favor e eles se tornam mais fortes, acreditam mais no que você fala. Está tudo muito ligado. Se você se sente fraco fisicamente, não será mentalmente forte. O lado mental é acreditar em si mesmo, e isso começa com o físico.

BRMX – Eles comem ou bebem algo especial nos dias de corrida?
Aldon Baker – Não. Tudo tem que ser igual. Lembre-se que você se preparou para aquilo. O dia de corrida deve ser igual. Você não muda nada para algo que você não está acostumado. Todas as refeições são iguais, tudo básico. É uma rotina. Mas tudo é mensurado e controlado. Só que o dia de corrida é o dia mais fácil, porque é ainda mais básico. E, claro, Supercross não precisa tanta hidratação quanto no Motocross. É tudo de acordo com a necessidade da competição.

BRMX – Na pré-temporada, o trabalho é muito diferente da temporada?
Aldon Baker – Sim. É muito mais intenso e pesado na pré-temporada. E depois, durante a temporada, você corre todos os fins de semana, você viaja toda semana, e tudo tem que ser adaptado para isso. É claro que tentamos continuar melhorando durante a temporada, mas o ganho é muito menor, porque tenho que colocar menos carga neles.

BRMX – Eles chegam a perder rendimento ao longo da temporada? Vamos pegar Ken Roczen como exemplo: poderíamos dizer que ele começou melhor do que ele está agora?
Aldon Baker – Uma coisa que não podemos esquecer sobre Kenny é que ele não está acostumado a correr 17 etapas em uma temporada. Isso é uma coisa para a qual você prepara o piloto, mas é necessário que ele passe por isso para realmente saber como funciona. E é realmente difícil esta rotina de corrida semana após semana. Cada semana é diferente e você pode ter resultado diferente. Semana passada (em Indianápolis) vivemos um dia difícil, com os dois caindo na primeira curva. Ryan se saiu melhor, eu acho, por causa da experiência. Kenny, pela falta de experiência, cometeu mais erros. Ryan, tricampeão, sabe como o fim de semana vai transcorrer. E Kenny ainda está aprendendo. Isso não tem muito a ver com a preparação, e sim com o quão rápido cada um consegue se adaptar com a corrida. É como em Daytona, em uma pista bem diferente das demais. É neste ponto que o campeão consegue se adaptar mais rapidamente.

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Saindo para pedalar com RV, KR e AC – Foto: @aldonbaker Instagram

 

BRMX – Como funciona o uso da bike nos treinamentos?
Aldon Baker – Depende de quanto eu preciso exigir, e varia durante a semana. Em algumas semanas mais vamos ter que mudar um pouco para já iniciar a preparação para o motocross. Não temos muito tempo entre o supercross e o motocross. Enfim, a bicicleta é uma das partes mais importantes do meu treinamento, porque é ela é uma das melhores maneiras para ganhar preparo.

BRMX – Já ouvimos bastante sobre a aposentadoria de Villopoto. Isso está realmente próximo de acontecer?
Aldon Baker – O plano é que ele encerre a carreira no fim do ano que vem (2015). No atual contrato dele, a próxima temporada já é uma opção. Provavelmente ele fará o próximo ano, mas não tem nenhum plano de ir mais longe que isso. E também é por isso que hoje estou com Kenny. Se Ryan tivesse mais quatro anos de carreira, eu dificilmente traria alguém como Kenny. Ele ajuda Ryan a se motivar, a se empenhar até o fim de sua carreira.

BRMX – Mas Ryan é muito jovem para parar.
Aldon Baker – Sim, é jovem. Mas já alcançou todos seus objetivos e chega um momento que é difícil lidar, ainda mais se você quer ter uma família. É muito complicado ter família praticando este tipo de esporte. Ele traçou seus objetivos e alcançou mais do que imaginava. Financeiramente está bem, então está olhando o futuro. Ricky (Carmichael) também se aposentou cedo, mas esses caras estão há mais de dez anos competindo em alto nível, e isso é um longo período. E ainda tem o tempo antes disso, como amadores. É uma decisão individual. Talvez se ele não tivesse atingido os objetivos, estaria pensando em continuar. Mas Ryan não tem mais nenhum objetivo.

BRMX – O Motocross das Nações está nos planos para este ano?
Aldon Baker – Eles sempre colocam nos planos, mas não sei. Agora o “Des Nations” acontece um mês depois do encerramento do AMA Motocross, e já é um período que nós temos que estar treinando supercross por causa da Monster Energy Cup. E a Monster é patrocinadora do Ryan, é uma grande corrida, que você precisa estar preparado. Desde que eles mudaram o MXoN para um mês depois do fim da temporada de motocross, eu não sei. Foi uma decisão meio estúpida. O time tem tentado, mas não é fácil. É uma relação meio injusta com os europeus porque para eles é logo em seguida ao fim da temporada do Mundial, uma semana depois. Para mim, como treinador, o “Des Nations” é injusto para os americanos neste momento por causa disso. E não paga nada. Eles são profissionais, podem ir até lá e se machucar, e perder uma temporada inteira por causa disso.

BRMX – Talvez esta foi a maneira que eles encontraram para bater os americanos?
Aldon Baker – Talvez seja o plano. Mas também entendo, já que eles precisam terminar a temporada deles para então fazer o MXoN. Mas para mim, como treinador, fazer um programa de treinos de alto nível nestas condições é muito complicado.

BRMX – Você acompanha o Mundial de Motocross? Assiste as corridas?
Aldon Baker – Sim. Ainda mais agora que Tyla Rattray, com quem trabalhei aqui, está de volta com a Husqvarna. Infelizmente ele se machucou. Mas eu tento assistir, gosto de assistir na televisão. São corridas muito legais.

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Aldon, esposa e filhos – Foto: Arquivo Pessoal

 

BRMX – Acha que Cairoli poderia vencer nos Estados Unidos?
Aldon Baker – É difícil dizer. Todos tentam comparar. Mas as pistas são diferentes e a temporada é diferente. Acho que ele teria chances. Ele não é campeão mundial por nada. Ele teria que vir fazer uma temporada, e não apenas para uma corrida. O mesmo para um americano correr o Mundial. Você tem que colocar tudo na balança.

BRMX – Você conhece algum piloto brasileiro.
Aldon Baker – (pensando) Não, não conheço.

BRMX – Talvez Antonio Balbi?
Aldon Baker – Sim, ele sim. Não tinha certeza se era brasileiro, argentino ou equatoriano. Lembro do nome, e é admirável qualquer um que venha de outro país para tentar competir aqui. Você tem que mudar todo seu estilo de vida. É difícil.

BRMX – E nos Amadores, talvez Enzo Lopes?
Aldon Baker – Não conheço, mas vou ficar de olho. Estou um pouco por fora dos Amadores, mas é uma área que quero prestar mais atenção no futuro. Ajudar a trazer mais amadores para os profissionais. Trabalhando agora com o Adam (Cianciarulo), vejo o quanto é difícil esta transição.

BRMX – Você já esteve no Brasil?
Aldon Baker – Não, mas estou vendo a possibilidade de ir para as Olimpíadas em 2016. E sou muito fã de Ayrton Senna, sempre admirei muito. Mas o problema de ir ao Brasil é que tenho que viajar, e não quero viajar, porque já faço isso o tempo todo (risos).

BRMX – Por fim, você poderia comparar Ricky Carmichael e Ryan Villopoto?
Aldon Baker – Ricky, bem, tive um envolvimento muito especial. Estou com Ryan há quatro anos e com RC estive junto oito anos. É difícil comparar, mas acho que são muito parecidos no jeito que conduzem as coisas. Ainda assim acho que Ricky fez coisas incríveis, foi dominante, especialmente no motocross. Foi inacreditável. As coisas mudaram, a competição mudou, está maior, mais profissional. A consistência de Ricky foi fenomenal. São dois pilotos fantásticos. Comparar é difícil. São épocas diferentes.